RESUMEN GRUPO DE TRBAJO 71

GT 71.  CARIBE E GUIANAS: ESPAÇOS DE REFLEXÕES ANTROPOLÓGICAS

Coordinadores:

Drª. Ana Isabel Márquez Pérez (Ocaribe-Colômbia)

Dr. Joseph Handerson. UNIFAP/NUCEC-UFRJ-Brasil

Dr. Marcelo Moura Melo. UFBA/LAH-UFRJ-Brasil

Comentarista: Dr. Edgar Rodrigo Barbosa Neto/ Drª. Kátia Cilene do Couto/Dr. Federico Neiburg

 

Sesión 1: Divindades, pessoas e artefatos

 

CIRCULAÇÕES MISSIONARIAS, PERCURSOS DE CONVERSÃO, PROSELITISMO EVANGÉLICO (HAITI/CUBA/ESTADOS UNIDOS)

 

Nadège MÉZIÉ. UFRGS/CAPES PNPD; nadegemezie@gmail.com

 

Haiti conheci recentemente, como outros países do Caribe e da América Latina, uma forte ascensão de igrejas evangélicas e pentecostais. Esta implantação e este aumento é, em parte, o fato de atores religiosos, estrangeiros ou locais, que também são atores transnacionais. Nas colinas (“mornes”) do sudoeste do Haiti, onde eu pesuisei por um ano e meio, aimplantação evangélica está intimamente relacionada com as circulações e migrações transnacionais, especialmente entre Cuba, Haiti e Estados Unidos. Migrantes haitianos convertidos durante a sua estadia (trabalho sazonal em Cuba em 1930; centro de detenção de Guantánamo nos anos 90), os membros da diáspora, os pastores (que fazem os seus estudos teológicos nos Estados Unidos ou estão envolvidos em campanhas evangelísticas em toda a América), os missionários estadunidenses contribuíram a implantar e disseminar os protestantismos evangélicos e pentecostais nas colinas da Grande-Anse. Vamos analisar nesta palestra as circulações de missionários americanos e os percursos de conversão e de evangelização dos migrantes haitianos originários dessa região. Vamos associara análise sobre o  ângulo circulatório com uma reflexão sobre a implementação local do protestantismo evangélico. Além disso, vamos concentrar-nos também sobre os fluxos de materiais e imateriais de proselitismo evangélico que circula entre o Haiti e os Estados Unidos.

Palavras chaves : missões evangélicas, conversão, transnacionalismo, migrações, Haiti.

 

 

“COISAS DE LWA”: OBSERVAÇÕES SOBRE AS RELAÇÕES ENTRE PESSOAS E INVISÍVEIS EM JACMEL/HAITI

Flávia Freire Dalmaso. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisas em Cultura e Economia (NuCEC) – PPGAS/Museu Nacional/UFRJ e PPGSA/IFCS/UFRJ. http://www.nucec.net/; fdalmaso@uol.com.br

 

Desde o início do século XX, mais precisamente a partir de 1915, ano em que o Haiti foi ocupado pelo exército norte-americano, o vodu tem se constituído como um objeto a ser explorado não apenas no âmbito acadêmico das ciências sociais, mas também no campo do folclore, das artes e da literatura. Na antropologia, a religião vodu tem sido um tema recorrente - mesmo quando não é ela o alvo central de investigação - aparecendo tanto em obras que tratam da ‘sociedade’ haitiana de maneira geral, quanto em trabalhos que se detém sobre temas como a organização familiar e a migração por exemplo. Partindo de uma pesquisa etnográfica levada a cabo entre os anos de 2008 e 2012 na região de Jacmel, sul do Haiti, o presente texto versa sobre algumas práticas reconhecidas pela literatura acadêmica como vodu haitiano, embora nem sempre seja esta a forma empregada pelos meus interlocutores. A ideia é avançar na concepção observada ao longo da minha tese de doutorado de que pessoas familiares são aquelas que são “umas das outras” (mounmwen – gente minha) e apresentar um universo no qual interagem - se relacionando e se afetando mutuamente - não apenas seres considerados pessoas, mas também outros sujeitos frequentemente chamados deinvisíveis, dentre os quais estão os lwa [espíritos] e os mortos.

Palavras-chave: Haiti, vodu, lwa, invisíveis.

 

 

AÇÚCAR, SANTOS E MORTOS: NOTAS SOBRE FAMÍLIA, TRABALHO E BRUJERÍA EM UM BATEY AÇUCAREIRO CUBANO 

Carlos Gomes de Castro. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, PPGAS/MN – Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ; cgomesdecastro@gmail.com 

 

Depois de quase uma década sem moer, uma usina açucareira, localizada em Matanzas, Cuba, tinha a previsão de voltar a funcionar em fins de 2012. As especulaciones sobre a provável reabertura eram tema de debate entre as pessoas, esperançosas com a possibilidade de resolver melhor os problemas da vida ordinária com os salários em divisa que, assim diziam, receberiam. A notícia também atravessava as cerimônias e festejos ‘religiosos’. Em uma matança de animais numa festa de “aniversário de santo”, um santero responsável pela distribuição das oferendas aos orishas pedia, em certo momento, para Eleguá abrir os caminhos dos trabalhos da usina e relembrava o sobrenome dos principais ancestros do local. A casa onde se realizava a celebração destacava-se no bairro: era um assentamento de Eleguá, bastante próximo de uma antiga árvore ancestral. Tal evento desvelava uma intensa relação entre la religión, como meus colaboradores referiam-se à santería, e as questões do mundo do trabalho e da vida ordinária. É para essa mescla que direcionarei o olhar neste artigo. Meu objetivo é testar um modo de descrição do batey que tenha como eixo narrativo o entrecruzamento entre as multifacetadas práticas de santería e a tarefa cotidiana de conseguir dinheiro, emprego e mercadorias em um local onde há escassez desses três elementos. Intento recriar e imaginar os sentidos do que é hacer la vida habitando nas proximidades de uma (falida) usina açucareira e trazer à baila as diferenciações e caracterizações dos espaços que constituem o que as pessoas designam por batey açucareiro. 

Palavras-chave:Açúcar; Batey; Santería; Trabalho; Escassez. 

 

 

CRISTIANISMOS SAAMAKA: ENGAJAMENTOS E EQUÍVOCOS

 

Rogério Brittes Wanderley Pires PPGAS-UFRJ, doutor; rogeriobwp@gmail.com

 

Os saamaka ocupam uma posição icônica na literatura antropológica: sua história de resistência à escravidão e relativa independência é usada como exemplo central em argumentações díspares. São pintados como heróis da diáspora africana nas Américas; como os maiores retentores de africanismos no Novo Mundo; como modelos de crioulização. Imagens que necessitam de reanálise por muitas vezes resvalam na ideia de que os saamaka seriam os mais “autênticos” maroons. O que pode ser um fardo, quando são tomados como parâmetro de comparação interna (muitos saamaka não correspondem a tais idealizações a respeito deles) e externa (colocando-os como modelo de tudo aquilo que uma comunidade de descendentes de fugitivos deveria ser).

O cristianismo atualmente praticado por uma parcela dos saamaka oferece perturbações ao modelo, pois contradiz certos clichês: de que sua ideologia resiste de maneira intransigente a tudo que é de origem estrangeira; de que seu universo mágico-religioso remete de maneira direta à África Ocidental do séc. XVII; de que vivem étnica e culturalmente apartados do mundo surinamês da costa. Descreverei alguns aspectos do cristianismo saamaka: alianças com humanos e não-humanos; engajamentos com pessoas, instituições e coletividades; equívocos gerados pelo diálogo e pela circulação de pessoas, espíritos e poderes; sua relação com as ideias de “estrangeiro” e de “desenvolvimento”. O objetivo é questionar etnograficamente, o que pode significar ser saamaka e ser cristão.

Palavras chave: saamaka, maroons, cristianismo, populações afro-americanas.

 

 

AINDA O HAITI, AINDA O VODU: AS JÉNNGINNEN E AS TRANSFORMAÇÕES NO CULTO AOS LOAS NO HAITI

 

José Renato Baptista. Doutor em Antropologia – Museu Nacional UFRJ. Professor Adjunto do Departamento de Ensino Superior (DESU) do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES) Pesquisador do NuCEC/MN – Núcleo de Estudos em Cultura e Economia/Museu Nacional; zrbaptista@terra.com.br

 

O propósito deste paper é retomar algumas questões que desenvolvi em minha tese de doutoramento, que procuro fazer uma etnografia do culto aos loas no Haiti. O culto aos loas, que é mais conhecido como “vodu haitiano”, exerceu um significativo fascínio sobre a imaginação antropológica (Hurbon, 2005; Yelvington e Magloire, 2005) ao longo do séc. XX. Exotismo, violência e imagens fortes construíram a percepção estrangeira da religiosidade popular do Haiti. No entanto, longe destas imagens feéricas de zumbis e sacrifícios sangrentos, as práticas das pessoas envolvidas com o culto aos espíritos, os loas (lwayo), zanj e djab revelam uma piedade e uma devoção que passam longe destas percepções que povoaram o imaginário corrente sobre o Haiti e o vodu. Através das jénnginnen, reuniões de prece aos santos católicos seguidas de rituais de possessão pelos loas, realizadas em santuários populares como Des Ermites, em PétionVille, Ste. Anne, em Anse a Fouler e Vierge de Grace, em Beaudit, teremos a oportunidade de perceber algumas transformações do voduhaitiano e nas formas de piedade associadas a este discutindo algumas reconfigurações do campo religioso no Haiti.

Palavras-chave: Haiti, vodu, religiosidade popular, transformação, campo religioso.

 

Sesión 2: Configurações migratórias, fluxos e percursos

 

 

IMIGRAÇAO DE JOVENS MULHERES BRASILEIRAS NA GUIANA FRANCESA: ENTRE CATEGORIZAÇÕES ETNO-NACIONAIS E ESTRATÉGIAS DE INTEGRAÇÃO

Brigida Ticiane Ferreira da Silva. Doutora em Ciência da linguagem; brigidaticiane@yahoo.fr

 

A presente pesquisa busca conhecer o percurso de oito residentes brasileiras morando há vários anos na Guiana Francesa, em situação de mixidade conjugal e inseridas no mercado de trabalho; a fim de cernir a maneira pela qual elas se percebiam em seu meio profissional, em sua vida social, mas também a fim de entender como são percebidas pelos membros de seu país de residência. Este estudo situa-se, portanto, ao nível das “representaçõesË® que são feitas pelas imigrantes brasileiras quanto a sua própria experiência de mobilidade e de inserção. A emergência de temas recorrentes, que surgirão nesses diferentes relatos, ajudará a formular hipóteses sobre as “estratégias” postas em prática por tais informantes para concorrerem ou mais modestamente ajustarem-se aos novos espaços de integrabilidade.

Palavras-chaves: imigração, representação, categorização, integração.

A FACE RECENTE DO FLUXO MIGRATÓRIO NO SUL DO BRASIL: HAITIANOS NA REGIÃO OESTE CATARINENSE

 

Leonel Piovezana. Doutor em Desenvolvimento Regional e professor dos Programas de Mestrado em Educação e Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais da UNOCHAPECÓ; leonel@unochapeco.edu.br

Sandra de Avila Farias Bordignon. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Comunitária Regional de Chapecó UNOCHAPECÓ. Pedagoga na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS); sandra.bordignon@uffs.edu.br

 

O estudo apresenta configuração dos movimentos recentes de migração haitiana no Sul do Brasil, especialmente na região oeste catarinense: aborda o processo de mobilidade humana, principais características de chegada e permanência dos haitianos e implicações na região. Os registros se baseiam em documentos e relatos de experiências, bem como observação participante dos pesquisadores. A migração no país é constante em todas asépocas, apesar das políticas imigratórias terem sofrido mudanças historicamente, elas não foram acompanhadas de soluções para integração. No caso dos haitianos, em 2010 sofrem calamidade ambiental, que intensificou o fluxo migratório que vem se transformando em permanente. A falta de instrumentos legais de uma política migratória adequada faz com que a chegada desses imigrantes ao país se transforme em desafios para a sociedade. No caso dos haitianos, o Brasil aceita o fluxo migratório além de suas expectativas, contudo não direciona uma política de imigração coerente. As consequências tendem à desumanização dessa população desassistida, que vê no Brasil oportunidades. Contempla-se de forma global que o Brasil possa efetuar o acolhimento dessesimigrantes. Na região oeste de Santa Catarina - em Chapecó, chegaram 24 haitianos em 2011, trazidos para trabalhar na Empresa Fibratec. A configuração dos movimentos é assim definida: a busca de trabalhadores estrangeiros pelas empresas; a vinda programada das esposas; e, sutilmente, a chegada dos filhos dos imigrantes haitianos. Esses estudos são preliminares à pesquisa e análise dos programas relativos aos haitianos na comunidade.

Palavras-chave: Migração. Haitianos. Política Migratória.

 

 

DIÁSPORA HAITIANA NO SÉCULO XXI : MOBILIDADE ESPACIAL DE TRABALHADORES PARA A REGIÃO SUL DO BRASIL

 

Maria de Lourdes Bernartt. Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGR) e do Programa de Pós-Graduação em Letras, da UTFPR Câmpus Pato Branco. Graduação em Letras. Mestrado e Doutorado em Educação. Pós-Doutorado em Educação (UNOCHAPECÓ); marialbernartt@gmail.com//marlou@pq.cnpq.br

TaízeGiacomini. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGR. Graduada em Letras. Especialista em Letras. Docente da Rede Pública do Estado Paraná (SSED-PR); taize.giacomini@hotmail.com

Sandra de Ávila Farias Bordignon. Mestranda do Programa de Pós-Graduação Educação (PPGE), da UNOCHAPECÓ. Graduada em Pedagogia. Pedagoga na UFFS –Chapecó-SC. Membro da Comissão PROHAITI (UFFS);  sandra.bordignon@uffs.edu.br

Leonel Piovezana. Docente do Programa de Pós-Graduação Educação (PPGE), e do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais e Dinâmicas Regionais, da UNOCHAPECÓ.  Graduação em História e Estudos Sociais. Mestrado e Doutorado em Desenvolvimento Regional; leonel@unochapeco.edu.br

Giovanna Pezarico. Docente do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Regional (PPGR) da UTFPR Câmpus Pato Branco. Graduação em Administração. Mestrado e Doutorado em Tecnologia (PPGTE); gpezarico@gmail.com

 

A mobilidade espacial da força de trabalho para o Brasiltem sido constante.  Para a região sul do Brasil, lócusda pesquisa, ocorreu significativa mobilidade espacial de força de trabalho, nas décadas de 1950 e 1960,  formada por agricultores, descendentes de italianos e alemães, em sua grande maioria. Atualmente, o sul, assim como outras regiões brasileiras, tem se tornado palco de nova mobilidade espacial da força de trabalho oriunda da América Central – Haiti. E, em razão de se observar a vinda de um grande número de trabalhadores estrangeiros, a partir de 2010, investigamos o modo como ocorre a mobilidade espacial da força de trabalho haitiana para essa região, e, principalmentecomo ocorre o processo de inserção social, educacional e linguística de tais trabalhadores. Os  resultados de pesquisas de campo exploratórias, iniciadas em 2013, e demonstram: a) o número de haitianos no sul chega a 38 mil dos 60 mil que adentraram no país, a maioria se concentra no Paraná e Santa Catarina; b) há despreparo dos brasileiros para recebê-los; c) suas principais dificuldades estão no  domínio da Língua Portuguesa, no preconceito, e na inserção escolar em razão da burocracia para validação de seus diplomas; d) registram-se ações humanitárias: de empresas, ONGs e igrejas que os acolhem; e) há organização de haitianos em associações, sindicatos, igrejas; e) universidades, como a UFFS e a UNILA estão tomando medidas para ajudá-los a superar tais dificuldades; f) sua “invisibilidade” está ficando visível e impelindo a atualização de políticas migratórias.

Palavras-chave:Diáspora. Mobilidade espacial. Trabalhadores haitianos. Sul do Brasil. Inserção social, educacional e linguística.

 

 

UNA FRONTERA COMPARTIDA POR CINCO PAÍSES CARIBEÑOS: ELEMENTOS CULTURALES Y ETNOLINGÜÍSTICOS PARA PENSAR EN LAINTEGRACIÓN REGIONAL

Silvia Mantilla. Universidad Nacional de Colombia – Sede Caribe (San Andrés islã) Profesora e investigadora; scmantillav@unal.edu.co

La ponenciatiene como finalidadgenerar insumos que permitanproponer y debatirlaidea de una Región de IntegraciónTransfronteriza entre cinco países que compartenfronteras marítimo territoriales en el Caribe, como sonColombia (San Andrés islas), Panamá, Costa Rica, Nicaragua y Jamaica. Se realizó una caracterización de la zona fronteriza a partir de procesoscomunes de configuracióngeohistórica, dinámicas de poblamiento y elementos étnicos, lingüísticos, culturales y religiosos que consolidaron la unidad sociocultural de esta frontera Caribe. El desarrollo de esta caracterizacióndejacomo resultado laidentificación de una comunidadtransfronteriza que, pese a las divisiones establecidas por los Estados nación, justifican la integración regional.

Palavras-chaves:comunidades transfronterizas, Caribe occidental, fronteras, etnia, lengua y cultura. 

 

 

SOBRE CAMINHOS E DESTINOS: O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA COMO PROJETO DE DESENVOLVIMENTO LOCAL NA GUIANA E NO SURINAME

Daniela Caruza Gonçalves Ferreira. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – PPCIS/UERJ. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Piauí – IFPI; danielacaruza@gmail.com

 

O turismo como atividade econômica na Guiana e no Suriname é predominantemente internacional, voltado para um mercado europeu e norte-americano. Os turistas estrangeiros circulam dentro e entre esses países, visitando lugares que foram transformados em destinos turísticos pelo potencial que manifestam em revelar certa imagem da Amazônia: ambientes “naturais”, “protegidos”, de onde é possível acessar facilmente “a floresta” na companhia de guias locais, cujo modo de vida e conhecimento tradicional (dos grupos étnicos indígenas ou afrodescendentes), transmitido aos turistas em inglês ou holandês durante os tours e atividades planejadas, é também um dos atrativos turísticos. Com o objetivo de atender bem a esses turistas, é introduzida nesses lugares uma expertise até certo ponto padronizada, voltada para técnicas mercadológicas de hospitalidade internacionalmente reconhecidas: um determinado formato de recepção, guiamento, hotelaria, cozinha e criação de roteiros e passeios. Com base em um estudo etnográfico exploratório nesses países, destaco duas iniciativas de turismo de base comunitária em vilas indígenas para pensar as relações que se constituem no processo de produção e comercialização de destinos turísticos internacionais. Proponho pensar, a partir de questões e reflexões colocadas pelas chamadas antropologia do desenvolvimento e antropologia política, as condições atuais de existência desses grupos e as formas como uma expertise externa e seus valores morais adjacentes circulam nesses lugares, sendo apropriados por esses grupos na tentativa de inserção em um mercado essencialmente “global”.

Palavras-chave: Guiana; Suriname; turismo de base comunitária; antropologia.

 

 

 

Sesión 3: Discutindo categorias antropológicas: Memória, História e Política

 

ESQUECIMENTO, MEMÓRIA E REAFIRMAÇÃO: COMUNIDADES QUILOMBOLAS E COMUNIDADES IMAGINADAS

 

Manfredo Pavoni Gay. Universidade Federal da Bahia (UFBA) Pos Afro. Doutorando em Estudos Étnicos Africanos; mpavoni@ufba.br

 

Este artigo foi desenvolvido no âmbito do projeto de doutorado “Comunidades Étnicas Simbólicas: Quilombo em Construção, Trabalhadores Rurais Sem Terra, Migrantes Refugiados na Itália. Resistir, Negociar E Hibridizar Frente à Globalização Hegemônica”, em execução pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos. A proposta emerge das primeiras experiências de campo realizadas em duas comunidades remanescentes quilombolas – Dom João situada no recôncavo baiano perto da cidade de S. Francisco do Conde,  Arauzinho localizada na municipalidade de Marau, Bahia e no Assentamento de Reforma Agrária “Floresta do Sul” perto de Ubaitaba cidade no sul da Bahia. Nas três realidades percebem-se três importantes elementos em comum: um passado de esquecimento, um presente de reafirmação e uma identidade “híbrida”. No entanto, nas três comunidades observam-se especificidades: No Quilombo de Dom João, a identidade é, de certa forma, rapidamente afirmada em decorrência de uma necessidade de trabalho – se perdem o território, perdem a identidade de pescadores; no Quilombo de Arauzinho a identidade é “hibrida”, é “ambígua”, a identidade permanece indefinida, não há uma necessidade eminente de “acelerar” uma definição identitária; no Assentamento, por outro, há um “esquecimento” de identidades originais e é mais corrente a identificação como “Sem Terra”. Mirando essas três realidades e pensando na definição de Benedict Anderson é possível afirmar que as três comunidades são “comunidades imaginadas”, comunidades hibridizadas com os eventos, na dinâmica da história.

Palavras Chaves: Identidade, Memoria, Pos memoria, Imaginação, Comunidade

 

 

 “MÉMORIAL ACTE‟: MEMÓRIA DA ESCRAVIDÃO, SER E TORNAR-SE GUADALUPENHO” 

Mariana Vitor Renou. PPGAS/ Museu Nacional – UFRJ 

 

Esta proposta pretende explorar os atores envolvidos, as relações e debates que surgiram no processo de construção e inauguração do “Mémorial ACTe –Centre Caribeen d‟expressions et de memoire de la traite et de l‟esclavage”. Inaugurado em maio de 2015, em Point-à-Pitre, Guadeloupe, a estrutura pretende ser um memorial, museu, centro de análise e pesquisa de referência para todo o Caribe sobre o tema da escravidão. O projeto do Memorial foi elaborado pela associação CIPN (Comité International des Peuples Noirs) e apresentado em 1998. Após um longo percurso, a realização do projeto coube ao poder público (Region Guadeloupe), e este ano a inauguração do empreendimento suscitou uma série de eventos, debates e discussões, que evidenciaram diversas práticas e concepções de grupos e associações locais, que ao longo dos anos tem colocado em seus horizontes de preocupação o passado escravista. São os diferentes elementos que surgem nesses movimentos, atores (humanos e não-humanos), relações, concepções e disputas que evidencio aqui, sobretudo relacionados ao processo recente de realização do Memorial ACTe. Processo que evidencia diferentes modos de pensar e viver o “tempo”, o “passado” e o “presente”, “política” e “cultura”, e o que é ser e/ou tornar-se legítimos “guadeloupéen et guadeloupéenne”. O que permite, ainda, ampliar as possibilidades de reflexão e análise sobre relações interétnicas, nação e nacionalidade, reparação e desigualdades, em Guadeloupe especificamente e no Caribe como um todo. 

Palavras-chave: Guadeloupe, escravidão, memorial, reparação, política. 

 

 

AS ARTES VISUAIS NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO PERFORMÁTICA DA HISTÓRIA MARTINICANA

Magdalena Sophia Toledo. Doutora em Antropologia, Museu Nacional, UFRJ. Docente de Cátedra, Universidad Alberto Hurtado, Chile. Pesquisadora associada LAH, Museu Nacional, UFRJ; madatoledo@yahoo.com.br

 

Esta apresentação pretende refletir sobre artefatos criados por distintos artistas plásticos martinicanos enquanto agentes na produção de uma forma específica de vivência e narrativa da história martinicana, podendo ser considerados, de certo modo, como prolongamentos do movimento literário da negritude. Nesse processo, a busca de novas temáticas, bem como de novos materiais a serem trabalhados, refletia um modo específico de formar-se como artista, que se misturava a um modo específico de ver-se e de viver como martinicano.

No trabalho do artista plástico René Louise, por exemplo, símbolos de divindades do vodu haitiano são relacionados a episódios específicos da história martinicana, servindo, igualmente, como modelos interpretativos para personagens presentes no imaginário da ilha, como o nègre marron. Este personagem, assim como temáticas e episódios históricos específicos, reaparecem na criação de outros artistas, em um processo performativo de reescritura da história martinicana que ganha força a partir dos anos 80. Neste, convém assinalar a forte presença da literatura, utilizada como fonte que fornece sobretudo uma imagem e uma narrativa específicas não apenas da história martinicana, bem como das culturas africana e caribenha.

Assim, do mesmo modo que Dayan (1998) reflete sobre o vodu como um “projeto de pensamento” que permite uma interpretação do passado colonial haitiano para além das funções históricas de preservação, concebendo os “espíritos como depositários de história”, podemos refletir sobre estes artefatos e seu modo de criação em tanto que interpretação performativa do passado martinicano, ao mesmo tempo que agentes e depositários de uma nova narrativa histórica.

Palavras-chave: artes visuais – artefatos – história martinicana – performance.

 

 

 

A PRESENÇA JUDAICA NO SURINAME, ETNOGRAFIA E HISTÓRIA

 

Thiago de Niemeyer Matheus Loureiro. Bolsista de Pós-doutorado do PPGCS/UFRRJ; thiago.niemeyer@gmail.com

 

O objetivo da comunicação é esquadrinhar uma cartografia provisória da presença judaica no Suriname, baseada tanto em dados históricos quanto etnográficos. A chegada dessa população data do século XVII, quando, expulsos do Recife, um grupo de judeus, liderados por David Nassy, migrou para Caiena (na atual Guiana Francesa), depois para Barbados e, finalmente, estabeleceu-se em Jodensavanne (literalmente "savana judaica"), território autônomo concedido pelos então governantes ingleses. Lá, distantes da perseguição inquisitorial, alguns desses judeus, de origem sefardita portuguesa (e, em menor escala, espanhola), se converteriam em plantocratas e senhores de escravos. Foi durante o século XVIII, também, que começaram a chegar judeus de origem asquenazita alto-germânica, falantes do iídiche, que fundaram sua própria comunidade, separada - e de relação diversas vezes conflituosas - da comunidade sefardita. Pretende-se conciliar "etnografia" e "História" a partir do tratamento da dimensão diacrônica dessa experiência de modo essencialmente sincrônico: analisando o modo como os judeus de hoje em dia produzem intervenções arquivísticas e elaboram genealogias, produzindo um conjunto de versões  do passado informadas por questões eminentemente familiares.

 

 

AS ANTILHAS DE ALFRED MÉTRAUX E MICHEL LEIRIS: ENTRE RELIGIÃO E POLÍTICA

Júlia Vilaça Goyatá. Doutoranda pelo programa de pós-graduação em Antropologia Social da Universidade de São Paulo (PPGAS-USP) e membro do ASA-USP (Artes, saberes e Antropologia).

 

Entre os anos 1940 e 1950 os antropólogos franceses Alfred Métraux (1902-1963)e Michel Leiris (1901-1990) estiveram nas Antilhas Francesas -Martinica, Guadalupe e República do Haiti - encarregados de missões etnográficas a cargo daUNESCO (Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura) e de órgãos do poder público francês. Nessas circunstâncias desenvolveram trabalhos paralelos e em diálogo que versavam principalmente sobre a temática racial e religiosa, mas também desenvolveram reflexões a respeito de seu lugar como antropólogos e da antropologia enquanto forma de saber. Em um momento político específico, o pós Segunda Guerra Mundial, tratava-se de entender a contribuição da antropologia na desconstrução do colonialismo.

Trata-se, então, de investigar de que maneira se deu o diálogo desses autores franceses entre si, mas também com a intelectualidade caribenha e africana, com os artistas da negritude e com as instituições, como a mencionada UNESCO. A partir dessa rede de relações busca-se compreender como a experiência nas Antilhas se torna fundamental para a concepção do que Métraux chama de uma “ciência social aplicada” (1953) e Leiris de uma “etnologia encarnada”(1958). A hipótese aqui é a de que os estudos de ambos os autores sobre as religiões à base de possessão, como o vodu haitiano, são fundamentais para a construção de um aparato conceitual capaz de dar conta das relações entre antropologia e política.

Palavras-chave:Alfred Métraux, Michel Leiris, Antilhas francesas, religião, política.