RESUMEN GRUPO DE TRBAJO 70

GT 70.  PESSOAS, CULTURAS E ESTADOS NA ÁSIA DO SUL

Coordinadores:

Fabiene Gama (Universidade de Brasília); fabienegama@unb.br

José Mapril (Universidade Nova de Lisboa); jmapril@fcsh.unl.pt

 

 

PODE UMA BIRANGONA FALAR?

Mayara Davy Bello de Freitas. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro; mayara.bello@live.com

Este trabalho tem como objetivo principal compreender como as construções violentas sobre gênero reproduzem o caráter violento do Sistema Internacional. Para isso, é feita uma análise sobre a construção do feminino no sul asiático, que entende a nação como feminina, a maternidade como a única contribuição das mulheres para o Estado e essencial o cumprimento de rigorosos ideais de moralidade. Conclui-se que esta construção torna permissível o uso deliberado de estupros como arma de guerra, já que o exército opositor, baseado nos mesmos pressupostos sobre o gênero feminino, entendem que o corpo da mulher é a continuação do campo de batalha para se destruir a nação do inimigo. Apesar deste entendimento, o trabalho busca ir além de reduzir o corpo da mulher a um meio e busca entender como  elas também são sujeitos passíveis de ódio por serem o outro do self universal masculino - mesmo que não possam ser reconhecidas como sujeitos. O trabalho também visa compreender as políticas públicas de reconstrução nacional do Estado de Bangladesh via reinserção das mulheres vítimas de estupro na sociedade e conclui que esta inserção ocorre nos mesmos pressupostos violentos sobre o ser mulher, dando continuidade ao ciclo de violência gênero-internacional, contribuindo para que elas continuem na subalternidade social e política e repercutindo negativamente na atual divisão internacional do trabalho e na prossecução dos crimes de guerra no Tribunal Internacional.”

Palavras-chave: Bangladesh -  Feminismo – Pós-colonialismo -  Guerra de Libertação – Birangonas.

 

BENGALIS BAUL-FAKIR, CANÇÕES BAUL E A INDÚSTRIA CULTURAL

 

Sandra C. S. Marques. CRIA/ISCTE-IUL; sandrasimoesmarques@hotmail.com

 

Baul é um sistema filosófico-prático de yoga que busca o estado de perfeição de união humano-divino através da prática continuada assente na relação de transmissão mestres-discípulo. Actualmente, os seus praticantes concentram-se sobretudo em West Bengal, Índia e no Bangladeche, são designados Baul ou Fakir e identificados primariamente pela sua prática musical de canções baul. Repositórios de pelo menos 600 anos de história bengali, para muitos baul-fakir, estas canções são expressão da sua identidade e das suas propostas filosóficas, não sendo elementos destacáveis das restantes práticas da sua procura do ser humano aperfeiçoado (siddha).

Em 2005, por proposta do Bangladesh, as “canções baul” foram proclamadas Património da Humanidade pela UNESCO e, em 2008, incorporadas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade sob a Convenção de Salvaguarda. A sua internacionalização havia ocorrido já na década de 1960, pela mão de Bob Dylan e do seu manager Albert Grossman, tendo sido, desde então, pontualmente introduzidas na indústria global de entretenimento como parte do género “world music”. Nos últimos 7 anos, as sucessivas medidas promocionais e de incentivos financeiros para eventos, catalogação, reprodução e divulgação fizeram multiplicar exponencialmente os conteúdos mediáticos baul, acelerando dramaticamente a sua transformação e das suas canções em produtos culturais consumíveis por um público alargado.

Esta proposta inclui uma introdução ao universo Baul-Fakir e uma reflexão crítica sobre o papel da UNESCO e do seu impacto transformador e potencialmente destruidor de património no actual contexto da indústria cultural global.

Palavras-chave:Baul-Fakir, identidades bengali, práticas musicais e performativas, património imaterial, indústria cultural.

 

 

SOBRE NAMOROS E DESEJOS: EXPERIMENTOS SEXO-AFETIVOS ENTRE JOVENS NUMA METRÓPOLE INDIANA E A CONSTRUÇÃO DA PESSOA

 

Fabíola Gomes. Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília

 

O trabalho aqui proposto visa discutir os experimentos existenciais de jovens abastados na cidade de Nova Deli em relação ao romance e à sexualidade. Ao enfocar uma fase liminar na vida dessas pessoas, a saber, os anos que antecedem o matrimónio (em que às expectativas sobre o casamento - ideal e normativamente arranjado -, somam-se, em muitos casos, romances pré-conjugais proibidos e ocultados dos pais), vislumbram-se processos de mudança nos casamentos e nos afetos. O modo como os jovens valorizam, ou não, o amor como prelúdio ao casamento tem destaque na investigação que também busca refletir sobre o papel desempenhado pelos namoros e pelas noções de amor ventiladas pelos interlocutores do trabalho de campo etnográfico nos processos de individualização em sua formação como pessoas.

 

 

DIÁLOGO VISUAL ENTRE ESTÉTICA E RELIGIÃO: O CASO DA DANÇA CLÁSSICA INDIANA BHARATA NATYAM

Joachim Andrade. Studium Theologicum, Curitiba – PR; joachimandrade@terra.com.br

 

Ao contrário da tradição ocidental – baseada nos filósofos gregos, que estabeleceram uma inter-relação bastante complexa entre o Bom, o Belo e o Verdadeiro – a tradição indiana hinduísta parece não ter desenvolvido um campo específico de reflexão que possa ser chamado de estética. Em sânscrito, usa-se a palavra kala, que engloba as noções de Bom, Belo e Verdadeiro em um único conceito, tornando-os quase indissociáveis. A ideia de kala – típica de um modo de pensar sintético – implica muito mais do que o conceito ocidental de arte. Uma diferença entre o modo de pensar hindu e o das religiões do Oriente médio  (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) é a maneira como ambas concebem a visualidade. Enquanto que as religiões semíticas constroem tradições que baseados na palavra, o Hinduísmo utiliza a imagem como elemento primordial e - ao contrário das religiões semíticas -, é a partir da visualidade que os sentidos são ativados. Diana Eck referindo-se ao Hinduísmo assinala que “Deus é evidentemente visível, embora o homem nem sempre possuam o refinamento de visão para vê-lo. Além disso, o Divino está não apenas no templo ou no santuário, mas também no completo continuum da vida – na natureza, nas pessoas, no nascimento, crescimento e morte”.  Segundo esse modo de ver, kala se manifesta em todas as coisas (pintura, escultura, dança e inclusive nos ritos sociais). A dança clássica indiana Bharata Natyam estabelece um diálogo com a religião e desenvolve uma linguagem gestual altamente codificada e refinada (os mudrás).

Palavras-chave: estética, kala, linguagem,  arte, visão.

 

 

O TAGORE DE CECÍLIA MEIRELES & AS REPRESENTAÇÕES DESSE OUTRO

Prof. Dr. Marcus Wolff PPGM - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-RIO); m_swolff@hotmail.com

 

O presente trabalho apresenta a visão que a escritora e poetisa brasileira Cecília Meireles (1901-1964) elaborou do poeta e músico indiano Rabindranath Tagore (1861-1941) a partir da análise de textos em que a escritora apresenta o autor de Gitanjali ao público brasileiro. Pretende-se demonstrar que Cecília constrói inicialmente, uma imagem do poeta bastante ligada à figura do poeta-místico, sacralizando-o, deixando de lado outras facetas de sua personalidade, seguindo um modelo eurocêntrico de representações do “outro” indiano, tal como indica Farrell (2000). Ao eleger a figura do poeta-místico, esqueceu-se do compositor engajado, que participou do movimento político indiano conhecido como Swadeshi. e do pintor modernista que ele se tornou já em idade avançada. Considerando o contexto em que viveu a poetisa brasileira, sua sensibilidade e sua relação com o grupo da revista Festa, pretendemos compreender o fascínio que a figura do poeta místico indiano exerceu sobre a autora e uma parte dos intelectuais cariocas não identificados nem com o cosmopolitismo eurocêntrico das elites da República Velha nem tampouco com o nacionalismo dos grupos modernistas paulistanos. Conclui-se que, em fase madura, após viagem à terra natal de Tagore, Cecília supera os estereótipos orientalistas, entabulando um diálogo com a civilização indiana e, dessa forma, contribuindo ainda que de forma intuitiva e preliminar para o estabelecimento de uma irmandade pós-colonial entre a Índia e a América Latina que o próprio autor de Gitanjali havia imaginado como possível, mas que ainda aguarda o seu momento de realização.

Palavras-chave: Tagore; Cecília Meireles; Cultura indiana; Cultura Brasileira; Pós-colonialidade.

 

 

 

 

IDENTIDADES (TRANS)NACIONAIS EM NARRATIVAS BIOGRÁFICAS DE NACIONALISTAS HINDUS CONTEMPORÂNEOS

 

Mirian Santos Ribeiro de Oliveira. Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Brasil); mirian.oliveira@unila.edu.br

 

Os processos de formação do Estado nacional indiano envolveram a elaboração de projetos nacionais distintos, concorrentes entre si. Este trabalho se concentra na análise de construções identitárias realizadas por um movimento nacionalista-religioso, o movimento Hindutva. Mais precisamente, examina as relações transnacionais entre uma organização nacionalista hindu, Rashtriya Swayamsevak Sangh (Organização Nacional de Voluntários, RSS), e emigrantes, atentando para as dinâmicas de (re)construção da identidade “hindu” como uma identidade transnacional. Dedica-se à análise de narrativas “oficiais” da Organização Nacional de Voluntários, isto é, ao exame de livros e panfletos publicados pela entidade em questão. Pesquisa de campo e coleta documental foram realizadas entre 2010 e 2012, em Nova Déli.  ‘Moving Spirit of Global Hindu Cause’ e ‘Memoirs of a Global Hindu’, os documentos selecionados para análise, relatam a experiência de dois ativistas hindus no exterior e suas percepções sobre a identidade “hindu”. É possível identificar em ambos os trabalhos: i) a reinterpretação de percepções sobre a emigração hindu); ii) a (re)construção de vínculos simbólicos com emigrantes hindus. Os dois aspectos mencionados são fundamentais para a compreensão da expansão internacional de filiais do RSS, uma vez que as novas narrativas sobre a emigração justificaram, legitimaram e encorajaram tal expansão. Destaca-se, por fim, a importância dos relatos biográficos considerados, apontados pelos ativistas como testemunhos históricos da formação de uma comunidade transnacional hindu e como referências para a preservação da identidade “hindu” na Índia e no exterior.

Palavras-chave: emigração; identidades transnacionais; nacionalismo hindu; narrativas biográficas; Índia.

 

 

PERFORMANCES EMOCIONAIS E O LUGAR DO CORPO NA MOBILIZAÇÃO POLÍTICA DE MULHERES EM BANGLADESH

 

Fabiene Gama. Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília

 

Em Bangladesh, espera-se que as mulheres tenham um comportamento contido e discreto. Elas devem cobrir seus corpos, falar baixo e não dirigir seus olhares aos homens. Seu lugar é em casa, não na rua, e há um grande controle tanto dos seus corpos, quanto da sua sexualidade. Mulheres que optam por participar ativamente de organização políticas e ter uma vida pública, portanto, experimentam uma posição ambígua: ao mesmo tempo em que atraem respeito e admiração por sua coragem, são assediadas e ameaçadas por suas performances. O telefone é o principal meio de intimidação. Ligações e mensagens anônimas são enviadas fazendo referências a detalhes da sua rotina ou uma situação que estão experimentando naquele exato momento. Imagens e textos pornográficos são publicados por usuários desconhecidos em suas páginas pessoais no Facebook e chegam automaticamente a seus telefones através de um sistema de envio que existe no país. Ameaças de estupro e comentários sobre seus corpos, assim como os usos que poderiam ser feitos deles, são parte dos conteúdos mais frequentes. Os constrangimentos, sejam públicos ou privados, significam por si só uma desonra, afastando muitas jovens da militância. Algumas líderes, contudo, fazem uso das coerções para se fortalecer e demonstrar coragem. Este paper tratará das performances, emoções e do lugar do corpo das mulheres em mobilizações políticas em Bangladesh.

Palavras-chave: Bangladesh, gênero, ativismo, performance, corpo.

 

 

PRÁTICAS E DISCURSOS: UM OLHAR CONTEMPORÂNEO SOBRE O SISTEMA DE CASTAS NA ÍNDIA

Andreia Filipa Marques Silva. CEI-IUL; andreiasilva16@hotmail.com

 

Este projeto teve como base um estudo etnográfico realizado em Nova Deli, no ano de 2012, comum grupo de mulheres valmiki (uma das diversas subcastas de Dalits), onde me propus explorar osmecanismos através dos quais opera a descriminação de casta e de género.

Pretendo dar continuidade a esta investigação, no âmbito do Doutoramento em Antropologia promovido pelo ISCTE-IUL, desta vez na cidade de Ahmedabad, no Gujarate, onde, apesar da proibiçãolegal da sua ocupação tradicional como limpadores de latrinas, os Valmiki continuam a exercê-la. Ao fazê-lo,espero contribuir para preencher a lacuna existente nos estudos antropológicos sobre intocabilidade na Índia.

Após uma primeira pesquisa bibliográfica sobre os principais trabalhos disponíveis, é minha intenção fazer uma observação etnográfica tão prolongada quanto possível entre esta casta de Dalits, cuja prática evidencia a contradição existente entre o plano legal e os planos social e ritual, contradição manifestada pela resistência à troca social por parte das outras castas. Para além de me propor a abordar as questões intrínsecas à discriminação da casta descriminação de casta nos seus modos de expressão e nos seus impactos sociais, políticos e económicos contra os Dalits e, em particular, os Valmiki, pretendo ao mesmo tempo perceber em que medida conceitos como justiça, direitos e cidadania se articulam no contexto da democracia indiana contemporânea. Ao trabalhar numa cidade como Ahmedabad tentarei, além disso, abordar os diferentes movimentos e organizações contra a discriminação dos Valmiki e respectiva recepção e interacção por parte da casta.

Palavras-Chave:Índia; Sistema de Castas, Cidadania, Direitos Humanos.

 

 

CASAMENTOS TRANSNACIONAIS: UMA ETNOGRAFIA ENTRE PORTUGAL E O BANGLADESH

José Mapril. CRIA/FCSH-UNL

 

Nas últimas décadas, a migração do Bangladesh para Portugal tem ganho uma significativa visibilidade. Esta migração mantém fortes ligações com o Bangladesh a vários níveis – políticos e económicos - mas um dos mais importantes é certamente as estratégias matrimoniais. Ao longo das últimas décadas, quase todos os meus interlocutores foram casar ao Bangladesh e constituíram as suas famílias em Portugal aos mesmo tempo que mantêm fortes ligações com a família extensa na desh.

Baseado numa etnografia multi-situada e longitudinal, o objectivo desta apresentação é analisar estas estratégias e os discursos sobre os casamentos destes probashis no Bangladesh. Pretende-se revelar não apenas o ponto de vista dos migrantes propriamente ditos (homens e mulheres) mas também dos seus familiares (não migrantes), e outros actores (gotuks, por exemplo), que estão intimamente envolvidos na prossecução de tais estratégias. Pretende-se desta forma revelar as ambíguas relações entre migrações, casamentos, hierarquia e valores hegemónicos de género num campo social transnacional. 

Palavras-chave: Bangladesh, masculinidade, migrações, estratégias matrimoniais, hierarquias.