RESUMEN GRUPO DE TRBAJO 68

GT 68.  ANTROPOLOGIA DO CONFLITO E DAS SITUAÇÕES DE CRISE

Coordinadores:

Carlos Abraão Moura Valpassos. Institución: PPGSP/CCH/UENF/NEANF/UFF-Campos.  valpassos@gmail.com

Santiago Alvarez. Institución: (Universidad Nacional Arturo Jauretche – Argentina alvaresantiago@hotmail.com

Arno Vogel. Institución: LESCE/CCH/UENF - Brasil arnovogel17@gmail.com

Comentarista: Ana Guglielmucci (CONICET-UBA)

 

Sessão 1: Os Conflitos da Cidade: Espaços e Representações

Comentadora: Ana Guglielmucci (CONICET-UBA)

 

ARENAS PÚBLICAS NA ‘‘CIDADE MARAVILHOSA’’: SITUAÇÕES DE RISCO, BRIGAS E CONFLITOS NO COTIDIANO DA PRAIA E DA FLORESTA

Caterine REGINENSI. Doutora em sociologia Paris VIII. Livre Docência em Antropologia Urbana - Universidade de Toulouse (França) Pesquisadora visitante do CNPq - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro – PPGSP

A praia e a floresta que caracterizam a metrópole do Rio de Janeiro são arenas públicas marcadas por desafios, práticas e conflitos. Diversas pesquisas, de abordagem etnográfica, realizadas entre 2005 e 2010, tornaram visíveis situações de risco e conflito.

Na praia e na floresta, identifiquei diferentes situações conflitivas vivenciadas pelos sujeitos a partir de intervenções públicas:

- na praia de Copacabana, camelôs, barraqueiros e quiosqueiros enfrentam, no seu cotidiano, situações de risco em relação ao meio ambiente, ao mercado econômico, ao transporte e à falta de serviços. As brigas no cotidiano transformam-se em conflitos a partir da implementação da operação Choque de Ordem.

- na floresta da Tijuca, os moradores contemplados, na comunidade chamada Vale Encantado, lutam permanentemente para poder ficar no lugar e entram em conflito com a prefeitura do Rio de Janeiro.

            Todos os indivíduos encontrados são vulneráveis, mas cada um tem a capacidade de fazer oposição ao risco que lhe é apresentado. O “saber negociar” ou o “ficar na sua”, respeitar as regras e até incorporar o discurso institucional (o tempo que seja necessário, por exemplo, quando um novo projeto de remanejamento ou de organização se instala), permite a manutenção no negócio e a geração de renda nos espaços da praia. A participação dos moradores no Vale Encantado, num fórum híbrido chamado Conselho da Cidadania do Alto da Boa Vista (CONCA), e a criação de uma cooperativa permitem que se desenvolva uma estratégia econômica, geradora de renda, ao mesmo tempo que criam uma outra de permanência no local.

Este trabalho aborda alguns dos conflitos urbanos do Rio de Janeiro desencadeados por intervenções públicas, focando nas diferentes práticas e concepções de uso dos espaços da cidade.

Palavras Chaves: Arenas Públicas; Riscos; Brigas; Conflitos; Cotidiano.

 

“ESSA CASACA É DUPLA-FACE”: UMA ANÁLISE DE EVENTOS CONFLITIVOS E DA DINÂMICA ORGANIZACIONAL ENTRE OS MORADORES DE DUAS FAVELAS VIZINHAS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

Juliana Blasi Cunha. Doutora Antropologia Social (PPGAS/USP) Professora substituta UFF/Campos dos Goytacazes; jblasicunha@gmail.com

 

O trabalho tem como tema a trama articulada em torno do processo de implementação de políticas públicas em duas favelas vizinhas, situadas na nobre Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, que formam o chamado “Complexo Pavão-Pavãozinho-Cantagalo”. A partir da análise de diferentes eventos conflitivos relacionados ao processo de intervenção dessas políticas públicas, pretende-se discutir a dinâmica organizacional dos moradores das duas favelas vizinhas. A forma como os moradores de ambas se organizam em diferentes situações sociais será comparada e analisada, buscando-se, assim, revelar os conflitos, alianças, arranjos e rearranjos em jogo entre eles. O trabalho busca, através da análise situacional, atentar para tudo que ela revela em termos das qualidades dinâmicas e processuais das relações sociais entre os moradores das duas favelas em questão. Pretende-se, a partir da análise de diferentes eventos conflitivos relacionados à implementação das políticas públicas, analisar o dinamismo através do qual os moradores do Cantagalo e os do Pavãozinho definem situacionalmente solidariedades e, sobretudo hostilidades entre eles.

Palavra-chave: conflito, favela, política pública e dinâmica organizacional.

 

 

“É MAIS POLÍCIA E MENOS GOVERNO” – AS INTERFERÊNCIAS E CONTROLES DA UNIDADE DE POLÍCIA PACIFICADORA NA ESFERA PÚBLICA LOCAL DE UMA FAVELA DO RIO DE JANEIRO

Gustavo Clayton Alves Santana. Mestre em Psicologia Social e Doutorando em Sociologia Política – Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF/RJ); gustavogcas@gmail.com

Esta pesquisa pretendeu identificar as representações sociais dos moradores de uma favela da cidade do Rio de Janeiro acerca das ações de segurança pública empreendidas pelo Governo do Estado na forma das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP).

As representações sociais aqui abordadas são as definidas por Serge Moscovici como conjuntos de pensamento diretamente ligadas às condutas individuais e coletivas criando, ao mesmo tempo, categorias cognitivas e relações de sentido exigidas para a inscrição social de determinado grupo.

Através de um trabalho de campo de inspiração etnográfica onde, em perspectiva comparada, buscou-se trazer a lume os contrastes presentes na relação que se estabelece entre o Estado e os territórios pobres, foi possível apresentar as imbricações dos moradores nesta atmosfera, as redes em que se inscrevem, as disputas que travam e os arranjos que são obrigados a fazer para atuar na esfera pública local e quando confrontados com os poderes supralocais.

As representações sociais recolhidas a respeito da atuação da UPP e do convívio forçado com os policiais apontam para a permanência de um cotidiano de violência e coerção e nos levaram a pensar algumas disjuntivas entre a efetivação desta modalidade de policiamento e a práxis dos policiais envolvidos. Além disso, foi possível perceber o grau de influência que a imagem da UPP e as expectativas em relação à sua permanência ou não na comunidade geram nos moradores, fazendo-os interiorizar na esfera pública local determinadas opiniões e estereótipos que, em muitos momentos, moldam seu comportamento público sobre o programa.

Palavras Chave: Favela; Representações Sociais; UPP; Controle; Conflito.

 

MORALIDADES E CONFLITOS EM SITUAÇÕES DE ESPERA DO TRANSPORTE COLETIVO EM CAMPOS DOS GOYTACAZES

 

Ailton Gualande Junior. Graduando em Ciências Sociais pelo Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense – ICSDR/UFF. Integra o grupo de pesquisas Cidades, espaços públicos e periferias – CEP28; jrgualande@hotmail.com

 

Esta pesquisa se enquadra no projeto Filas, esperas e tensões em pontos de ônibus em Campos dos Goytacazes, que busca analisar diferentes modalidades de tensões e conflitos e as formas de administrá-los em Campos dos Goytacazes/RJ, Brasil, entre passageiros do transporte coletivo, operadores do sistema (rodoviários) e fiscais municipais. Nesse sentido, proponho mapear as moralidades que orientam as interações de face a face nas situações de copresença entre esses atores, priorizando a observação das filas de espera nos terminais rodoviários. Descreverei as diferentes sequências que compõem esses conflitos e as formas de administrá-los. Para tanto, realizo uma etnografia ou observação in situ em pontos de ônibus, focalizando-me em situações de tensões entre os diferentes atores que compõem esses espaços públicos. Dessa forma, articularei esta análise situacional com a política urbana de transporte no intuito de compreender se o assunto constitui-se como problema público, nos termos propostos por Gusfield (1981). Ao mesmo tempo buscarei analisar os repertórios utilizados por gestores públicos e operadores do sistema, bem como a legislação vigente com a finalidade de compreender as gramáticas mobilizadas em torno do serviço de transporte em Campos. Em suma, a pesquisa possibilitará descrever parte do processo de vulnerabilidade do citadino campista (Joseph, 2000) pela lente dos transportes.

Palavras-chave: Experiência citadina, espaço público, moralidades, tensões, conflitos.

 

 

O DRAMA COMO MOMENTO DE EVIDENCIAÇÃO DE POSICIONAMENTOS POLÍTICOS: COMPETÊNCIA, JUSTIÇA, MÉRITO E SEUS MÚLTIPLOS AGENCIAMENTOS EM UM CONTEXTO DE FUNCIONALISMO PÚBLICO MUNICIPAL

Gabriela de Lima Cuervo (Doutoranda PPGA/UFF); bicuervo@gmail.com

 

Esta comunicação tem como proposta demonstrar de que modo a análise retrospectiva de um momento político conflituoso do município de Magé/RJ - a administração Núbia Cozzolino (2005-2010) auxilia na apreensão de um quadro de construção da crítica no qual categorias como competência, justiça e igualdade são mobilizadas criativamente por funcionários públicos municipais, ao refletirem sobre situações vivenciadas em seus cotidianos de trabalho. Ao tomar como objeto de análise carreiras de professores do município e as mudanças e contratempos por eles enfrentados por conta das dinâmicas de cada governo em minha dissertação de mestrado, concluí que aquele contexto de funcionalismo público era marcado por um jogo de construção de reputações e processos de classificação, onde era colocada em questão a “competência” daquelas pessoas no exercício de seus cargos. Ali, discutia-se tanto o estatuto da própria “competência” e a dos colegas, assim como as prerrogativas para alguém ser considerado “competente”. A mobilização de sentidos de justiça acerca das possibilidades de compensação social em torno da “competência” de cada um era reforçada, sobretudo, pela proximidade com a política eleitoral, quando há tanto funcionários que chegam ao serviço público através do contato com pessoas que transitam naquele universo político, quanto funcionários que passam a se envolver com a “política” através e após o acesso ao emprego público. Veremos que os discursos mobilizados no momento político em questão e aqueles que envolvem as histórias de vida destes funcionários evidenciam uma espécie de oposição normativa “Estado impessoal/política, que pode ser agenciada de modos diferentes - tendo em vista tanto as posições temporárias ocupadas por eles naquele espaço, como as situações sociais nas quais estão inseridos - através da mobilização de gramáticas ancoradas em princípios como “eficiência” e civismo. 

Palavras-chave: funcionalismo público, competência, moralidades, justiça, igualdade.

 

Sessão 2: A Cidade Como Palco dos Conflitos

Comentadora: Ana Guglielmucci (CONICET-UBA)

 

CONFLITOS URBANOS E ESPAÇO PÚBLICO: AS PRAÇAS NAS RECENTES ONDAS DE PROTESTO AO REDOR DO MUNDO

Aldrey Cristiane Iscaro. Doutoranda em Planejamento Urbano e Regional. Pesquisadora do Laboratório Estado, Trabalho, Território e Natureza (ETTERN/IPPUR/UFRJ) Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR. Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; aldreycris@hotmail.com

 

O urbano vem se constituindo como a principal forma de acumulação de capital no mundo, resultando em barbarismo e violência de populações inteiras em nome do lucro, seja por conta do transporte público, da insegurança e violência urbana ou da precariedade dos serviços públicos urbanos. Ou seja, a destruição criativa não somente influenciou questões físicas dos grandes centros urbanos, mas também destruiu as solidariedades sociais, aumentou as desigualdades sociais, deixou de lado as questões da governança urbana democrática e tem aumentado o terror como seu modo principal de regulação social. E esta crise urbana mundial constitui o ponto nodal de vários conflitos urbanos que vem acontecendo ao redor do mundo.

O objetivo deste paper, assim, é analisar e comparar a relevância do espaço público, em especial, das praças, nas recentes ondas de protesto, a saber, a Praça Syntagma, na Grecia, a Praça Taksim, em Istambul, juntamente com as manifestações ocorridas no Brasil do movimento Occupy e as Jornadas de Junho.

Para tal, utilizaremos como metodologia o levantamento bibliográfico, os materiais produzidos pelos manifestantes e pela sua rede de apoiadores, observação direta, materiais compartilhados pela rede de pesquisadores do laboratório de pesquisa.

Nossa hipótese de pesquisa é de que o espaço público, isto é, praças, parques, ruas e avenidas não foram somente local de acolhimento das populações, mas o fato politico que impulsionou a onda de protestos, e estes espaços públicos, além disso, foram muito mais que uma união de corpos, a saber, foram a retomada da esfera pública.

Palavras-chave: Protesto, Espaço Público, Conflitos Urbanos, Crise Urbana.

 

FUEGO Y ASFALTO. PROTESTAS, INSURGENCIAS Y GESTIÓN DEL CONFLICTO EN SANTIAGO DE CHILE

Andrea Soledad Roca Vera. Antropóloga Social, Universidad de Chile.  Doutoranda Programa de Pós-graduação em Sociologia, Universidade de São Paulo; andrearocav@gmail.com

 

El 2011, ciudades tanto del sur global como del norte desarrollado fueron escenario de multitudinarias protestas, muchas de ellas, movilizadas por la justicia global y una crítica a la expansión del neoliberalismo en diferentes esferas de la vida social. En esta ponencia discutiremos dos fenómenos que han ganado centralidad en en el reciente ciclo de protestas. De un lado, la incorporación de una violencia performática, no letal y de pequeña escala contra símbolos del Estado y Capital, en los repertorios de contestación de grupos minoritarios, como fue verificado en los últimos años, en ciudades tan dispares como El Cairo, Atenas y Rio de Janeiro. De otro lado, el recrudecimiento del uso de la fuerza física y adopción de una lógica militarizada en el policiamiento de las protestas, movimiento concomitante a la circulación de tecnologías desarrolladas para el control de las multitudes. Dentro del contexto global, discutiremos elementos para analizar el entrecruzamiento de esos fenómenos en las movilizaciones convocadas desde el 2011, por el movimiento estudiantil en Santiago de Chile, protestas que inauguraron el mayor ciclo de contestación pública, en ese país, desde el retorno de la democracia en 1990 y donde, en los últimos años, bombas molotovs y piedras, gas lacrimógeno, balines de goma y carros lanza-aguas, forman parte del elenco habitual. Reflexionaremos sobre parámetros analíticos que contribuyan a comprender el estatuto de esas rebeldías “mal comportadas” en la cartografía política de la ciudad contemporánea. 

Palabras-claves: protestas urbanas, repertorios de violencia, gestión del conflicto, policiamiento de la protesta, Chile. 

 

ADENTRANDO O FLUXO DE INTERPRETAÇÕES: TRABALHO DE CAMPO, METODOLOGIA E TEORIA A PARTIR DA CONTROVÉRSIA DA “GUERRA DO PENTE”

João Bosco Oliveira Borges. Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Paraná (UFPR); bosco.borges@gmail.com

 

Curitiba, 08 de dezembro de 1959: uma briga iniciada numa loja entre um comerciante de origem libanesa e um cliente se amplia com o envolvimento de outras pessoas transformando-se em uma série de incidentes de violência coletiva. Após a intervenção do exército e quase três dias de conflitos, mais de 120 estabelecimentos comerciais da cidade – muitos dos quais de propriedade de sírios e libaneses – haviam sido destruídos. Desde sua ocorrência, esse caso que ficou conhecido como a “Guerra do Pente” – em decorrência de o conflito inicial ter derivado de uma polêmica em torno da compra de um pequeno artigo: um pente – tem mobilizado uma série de atores, que buscam compreender o que teria ocorrido naqueles dias. A minha dissertação teve como objeto justamente essas narrativas produzidas ao longo do tempo sobre o assunto. O objetivo era entender como elas emergem, quem as produz, que elementos mobilizam, como circulam e se disseminam, como se esgotam ou se fortalecem, como modulam e/ou impõem limites a narrativas futuras, e, ao mesmo tempo como, nesse movimento, constituem pessoas e coisas, espaços e tempos. Neste texto, eu tratarei a respeito da forma como eu concebo esses episódios de violência a partir da noção de “controvérsia” e de outras questões teórico-metodológicas. Em seguida, discutirei algumas questões relacionadas às especificidades do trabalho de campo, sobretudo, os dois tipos de aprendizado com os quais me deparei durante essa experiência. Finalmente, discorrerei mais propriamente sobre a entrada no campo e aquilo que eu chamo do fluxo de interpretações.

Palavras-Chave: controvérsia; violência coletiva; trabalho de campo.

 

 

A DIFERENÇA DOS IGUAIS: O CONFLITO COMO GÊNESE DO MOVIMENTO HIP-HOP

Thayroni Araújo Arruda. Doutorando em Antropologia Social pela Universidad Nanional de San Martim / AR; thayroniarruda@hotmail.com

 

O processo de deslocamento forçado de um enorme contingente populacional africano para ser utilizado como mão-de-obra no continente americano, fez surgir nos sujeitos a necessidade de buscar elementos simbólicos que estruturassem uma rede de relações sociais e culturais de adaptação e reconstrução; possibilitando desta forma, a recriação do seu lugar de origem. Dentro da nova conjuntura sociocultural na qual os sujeitos se veem obrigados a conviver, surgem mecanismos de resistência que convertem e adaptam os valores e sentidos da vida pré-diáspora à nova realidade que foi imposta, a realidade de se viver como forasteiros em terras estranhas. Esses mecanismos buscam assimilar à cultura novos elementos sem que a mesma perca sua característica. Há um processo contínuo de reelaboração da identidade negra através de atividades culturais, podemos notar uma influência direta nos processos artístico-culturais desenvolvidos tanto pelas colônias, quanto pelos colonizados.

O presente artigo tem como objetivo analisar o surgimento do movimento hip-hop como resultado equivalencial de demandas oriundas desses diferentes povos em uma época especifica da cidade de Nova York. A dinâmica conflituosa de interação entre os jovens que deram início a tal movimento também pode ser compreendida como elemento fundante de outras formas de agrupamentos juvenis; como o caso do movimento hip-hop em uma cidade do Nordeste brasileiro.

Palavras-chave: conflito, sociabilidade juvenil, hip-hop.

 

 

Sessão 3: Tradição, Cidadania, Igualdade e Hierarquia

Comentadora: Ana Guglielmucci (CONICET-UBA)

 

NOVOS PARADIGMAS DA CIDADANIA: UM DEBATE SOBRE ESTRATÉGIAS SIMBÓLICAS E NEGOCIAÇÕES DE TRANSFORMAÇÃO

 

Marcelo Augusto de Paiva dos Santos. Mestrando em sociologia com ênfase em antropologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – PPPGSA; paiva.marcelosantos@gmail.com

 

A presente comunicação pretende analisar o significado compartilhado e, cada vez mais evidenciado, de trabalho sociocultural do grupo Jongo da Serrinha, por meio de um estudo de caso sobre sociabilidades. O Jongo da Serrinha, localizado em Madureira, na cidade do Rio de Janeiro, representa a consolidação de tradições populares de famílias negras, vindas do Morro do Rio Paraíba, que peregrinaram pelo sudeste até estabelecerem assentamentos em conhecidas favelas do Rio de Janeiro. Em 2001, através de financiamento da Petrobrás e do Ministério da Cultura, fundaram, através da criação de uma organização, a Escola do Jongo como fonte de tecnologia social. O seu trabalho sociocultural enfatiza a criação de laços comunitários, a agência sobre a vida de jovens e condiciona mecanismos de sobrevivência de suas tradições culturais.

Esta pesquisa tem como objetivo o seguinte problema: compreender qual significado de cidadania este grupo compartilha e como negociam, através da sua noção de trabalho sociocultural, o sentido prático de suas mobilizações, tanto entre a comunidade como também ao Estado. O intuito final é refletir sobre como a política de identidades pode ser vista como categoria nativa, e principalmente como operá-la para pensar sobre o atual modelo de cidadania social. A hipótese central é a de que, pensar o uso social das negociações simbólicas através do a) mito da origem e a b) fábula das três raças, pode revelar rachaduras específicas do engendramento político de cidadania brasileira, revelando o conflito inerente às instâncias de disputa por direitos de reconhecimento de redistribuição dos bens simbólicos.

Palavras chaves: reconhecimento, jongo, simbólico, desigualdade, cidadania.

 

 

TERRAS TRADICIONALMENTE OCUPADAS? – UMA ETNOGRAFIA DA LUTA DO SANTUÁRIO DOS PAJÉS CONTRA O SETOR NOROESTE DE BRASÍLIA

José Humberto de Góes Junior. Professor Assistente do Departamento de Direito da Universidade Federal de Goiás – Campus Cidade de Goiás (UFG/CCG) Estudante do Programa de Pós-Graduação em Direito, nível de Doutorado, da Universidade de Brasília (UnB); Mestre em Ciências Jurídicas, área de concentração em Direitos Humanos, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB); jhgoesadv@yahoo.com.br

 

O presente trabalho se constitui como uma Etnografia do conflito, tendo como centro a resistência e a luta realizada pela Comunidade Indígena Fulni-Ô/Tapuya – Santuário dos Pajés para o reconhecimento de suas terras tradicionais em uma área urbana alvo de interesses da indústria da construção civil situada no Plano Piloto de Brasília/Distrito Federal/Brasil. Partindo dos sentidos dados à expressão “terras tradicionalmente ocupadas” no Direito e na Antropologia, bem como de falas significativas promovidas por distintos sujeitos, incluindo a entidade indigenista nacional brasileira (FUNAI), que interferem no conflito fundiário para negar ou afirmar a possibilidade de se constituir uma terra indígena com origem temporalmente conhecida e em área urbana, o objetivo do trabalho é compreender os significados que os sujeitos envolvidos no conflito conferem à expressão “terras tradicionalmente ocupadas”, que relações estabelecem com as epistemologias étnico-culturais indígenas e quais seus impactos para o reconhecimento de Terras Indígenas em espaços urbanos. Para responder às questões propostas e sistematizar a experiência teórica adquirida com o conflito fundiário, o autor revisita documentos, práticas, anotações de observação-participante e discursos significativos produzidos no âmbito de processos judiciais e administrativos que tiveram como objeto a área reivindicada pelos índios até o ano de 2011.

Palavras-chave: Luta pela terra – “terras tradicionalmente ocupadas” – epistemología indígena – Reconhecimento de Terra Indígena em espaço urbano

 

 

DEMOCRATIZAR LA UNIVERSIDAD: CIFRA DE UN CONFLICTO CONTEMPORÂNEO

Pablo Cottet Soto. Normalidad, Educación y Diferencia (NDE), CONICYT P. U. Católica de Chile, Académico U. de Chile y U. Academia de Humanismo Cristiano; pcottet@yahoo.com

 

La democratización de la gobernanza universitaria, es una de las condiciones gravitantes para el campo de lucha por el sentido del cambio universitario contemporáneo. Se trata de un asunto que, coyunturalmente en Chile, aparece otra vez los últimos años, primeros del siglo XXI.

La argumentación se organizan según la siguiente proposición: la universidad moderna es un privilegiado lugar de la conflictividad de la propia modernidad, que se ha difuminado globalmente poniendo a la universidad al centro del conflicto contemporáneo. En ese centro, la gobernanza universitaria requiere de un demos, para ello habría que sortear algunas dificultades específicas de nuestras universidades latinoamericanas.

El centro del conflicto contemporáneo: ¿Para quiénes y para qué se conoce en el siglo XXI? Responder esta pregunta pasa por la democratización del gobierno universitario, en dirección a dirimir la disputa universitaria del siglo XXI entre ajuste capitalista o reforma universitaria ¿Es posible la democracia en la universidad? Responder favorablemente requiere asumir que el sentido que permitiría a la comunidad universitaria convertirse en un demos, radica en la generación de prácticas universitarias que realicen lo común a quienes son universitarias y universitarios: cultivar diversos saberes y creaciones en común con las mayorías nacionales. Esta condición enfrenta obstáculos propios a cada estamento universitario en el contexto del capitalismo cognitivo contemporáneo.

 

 

EL BULLYING UNIVERSITARIO Y LAS RELACIONES DE PODER. ¿UNA ESTRATEGIA DE ASCENSO ACADÉMICO?

Pilar Fleitas. Cs. Antropológicas. Facultad de Filosofía y Letras. UBA; pilarfleitas@gmail.com

Gaia Quintana Fleitas. Cs. Antropológicas. Facultad de Filosofía y Letras. UBA

 

La comunidad universitaria no está exenta de determinadas formas de maltrato. El presente trabajo busca reflexionar sobre el particular problema del bullying o acoso universitario, los modos en los que se presenta, su alcance y sus consecuencias.

A partir de la observación participante, en este informe se muestran características de dicho fenómeno, los escenarios donde se articulan y cómo se manifiestan. Intentamos dar preeminencia a aquellos aspectos más sutiles donde las agresiones no dejan marcas visibles. Las formas veladas constituyen las tácticas más frecuentes en este tipo de conflicto. Estas acciones ocultas, como prácticas vinculadas al hostigamiento en el contexto universitario, tienen una llamativa falta de bibliografía específica. Constatamos distintos tipos de este flagelo muy relacionados a la producción investigativa y con el mobbing o acoso moral laboral.

Como las relaciones de poder desencadenan usualmente posibilidades de resistencia, analizamos los procedimientos tendientes al ejercicio de dominación/oposición como así también las pequeñas rebeliones, confrontaciones de microluchas conectadas entre sí. Investigamos sobre cómo es percibida esta problemática desde la perspectiva de los agentes participantes, sus realidades diversas, adversas y fronterizas. Observamos los procesos en los que los agresores obtienen inflaciones de poder a través de la manipulación y la violencia como también los mecanismos de estigmatización de las víctimas y múltiples aspectos tendientes a la discriminación y la exclusión.

Estudiamos las posibles incidencias que las relaciones de abuso de poder universitario tienen, de manera casi imperceptible, en el orden de la producción científica y del conocimiento.

Palabras clave: bullying; Universidad;   violencia;   poder;   discriminación.

 

Sessão 4: Cosmologias, Meio Ambiente e Representações em Conflito

Comentadora: Ana Guglielmucci (CONICET-UBA)

 

AS ESTRATÉGIAS DE GESTÃO DOS CONFLITOS NO PROCESSO DE MINERAÇÃO DA SERRA DO SAPO EM CONCEIÇÃO DO MATO DENTRO, MINAS GERAIS/BRASIL

Marcos Cristiano Zucarelli. Professor da Universidade Fumec, Pesquisador do GESTA-UFMG. Doutorando em Antropologia Social na UFMG; mczucarelli@gmail.com

 

A proposta examina os conflitos derivados da expansão da atividade minerária em Minas Gerais-Brasil e aponta a constituição de uma nova fronteira extrativa (BURY & NORRIS, 2013), na região do Médio Espinhaço, onde está em difusão um megaprojeto que articula em uma única infraestrutura a exploração do minério de ferro em cava de céu aberto, mineroduto para o transporte da polpa e um porto de exportação do produto localizado no litoral norte do Rio de Janeiro. O projeto designado Minas-Rio incide sobre a bacia hidrográfica do Rio Doce e intensifica regionalmente as disputas com relação à disponibilidade, acesso e uso da água. Abordando tais conflitos, o paper pretende discutir as estratégias corporativas de engajamento com e administração das críticas (BENSON & KIRSCH, 2010), a partir das experiências de pesquisa desenvolvidas durante o doutorado. No caso do projeto Minas-Rio, já em operação, essas táticas compreendem a negação das denúncias a partir da contratação de laudos alternativos, limitação das responsabilidades em relação aos danos produzidos sobre o abastecimento de água das comunidades, incluindo tentativas de gestão e monopolização sobre a definição de ‘atingidos’, além da promoção de compensações pontuais e restritas, estratégias estas que convergiram, finalmente, com a própria gestão estatal do conflito operada mediante a construção de novas institucionalidades que terminaram por se constituir como verdadeiras ‘máquinas anti-políticas’ (FERGUSON, 2006). Em suma, o intuito é problematizar as relações entre os grupos afetados e empresas, além do papel do estado na mediação de tais conflitos.

Palavras-chaves: Conflito; Mineração; Mediação.

 

 

SÃO PAULO VAI VIRAR ITU: ETNOGRAFIA DE UMA “CRISE HÍDRICA”

 

Danilo Castro Magalhães. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ)

 

Os conflitos pela água em meio urbano, especificamente aqueles relacionados à interrupção dos serviços de saneamento, tendem a se intensificar nos períodos de grandes secas como a que vive atualmente a região sudeste do Brasil. As situações de crise decorrentes de um desabastecimento de água expõem as fragilidades dos atuais modelos de gestão hídrica e nos exigem alguma reflexão, num momento em que a água se torna uma questão.

No contexto da atual “crise hídrica”, a cidade de Itu, no interior de São Paulo, ganhou projeção no ano de 2014 quando as imagens das barricadas, numa cidade há cerca de três meses sem água, chegaram ao noticiário nacional. Projetou-se que São Paulo, em contagem regressiva para ficar na mesma situação, estaria prestes a virar Itu.

Esse trabalho é resultante de quatro meses de campo vivido junto aos integrantes remanescentes do movimento “Itu vai parar” (e sua rede de contatos), movimento que se articulou no momento mais crítico do período de desabastecimento vivenciado pela cidade de 165 mil habitantes.

O objetivo é reconstruir esse cenário entre crises, partindo das estruturas narrativas desse evento crítico e das imagens e afetos envolvidos na imaginação do colapso que poderia afetar São Paulo. Assim, será possível abordar tanto algumas das questões que um conflito pela água pode sugerir, quanto questões referentes à própria noção de crise, entendendo a gramática da “crise” como o repertório disponível para lidar com uma situação de contornos ambientais.

Palavras-chave: crise, crise hídrica, escassez de água, mobilização social, conflitos pela água.

 

 

COSMOVISÕES EM CONFLITO: A IDEOLOGIA SANITARISTA E A FISIOCRACIA AGRESTE DOS PESCADORES DA LAGOA FEIA E DE MARICÁ

Carlos Abraão Moura Valpassos. Bolsista de Pós-Doutorado PNPD CAPES pelo Programa de Sociologia Política da Universidade Estadual do Norte Fluminense (PPGSP/UENF)Pesquisador do Núcleo de Estudos Antropológicos do Norte Fluminense – Luiz de Castro Faria (NEANF/UFF-Campos) Pesquisador do Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ); valpassos@gmail.com

Marco Antonio da Silva Mello.Professor do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF)Professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio de JaneiroPesquisador do Laboratório de Etnografia Metropolitana (LeMetro/IFCS/UFRJ); mmellobr2@gmail.com

 

Na primeira metade do século XX iniciou-se no Brasil um movimento de preceitos higienistas, onde se combinavam a medicina e a engenharia sanitária. Isto resultou na formulação de uma política pública direcionada para o saneamento do país, iniciada na década 1930 e implementada, a partir da década de 1940, pelo Departamento Nacional de Obras de Saneamento - DNOS.

A Baixada Fluminense foi uma das principais áreas de atuação dessa política que se desdobrou nas ações de dragagens, entulhamento, retificação de rios e córregos, além da abertura sistemática de canais e barras oceânicas, procedimentos estes que provocaram consideráveis impactos nos diversos ecossistemas da região, entre os quais a bacia hidrográfica da Lagoa Feia e o sistema das lagunas de Maricá.

O objetivo deste artigo é evidenciar o modo como tais intervenções, promovidas pelo DNOS, no âmbito das políticas públicas do saneamento da baixada litorânea fluminense, contribuíram não somente para afetar profundamente os ecossistemas costeiros e sua gestão e manejo tradicionais, mas, além disso, e sobretudo, para desestabilizar a economia da região, com consequências para as populações dos assentamentos de pescadores tanto na Lagoa Feia quanto na Lagoa  de  Maricá.

Palavras-Chave : Pesca Artesanal ; Conhecimentos Naturalísticos ; Saneamento ; Políticas Públicas.

 

 

O DECRETO DA DISCÓRDIA: ACORDO BRASIL-SANTA SÉ E A CONFESSIONALIZAÇÃO DAS ESCOLAS PÚBLICAS BRASILEIRAS

 

Milton S. dos Santos. Doutorando em Antropologia Social (UNICAMP) LAR-Laboratório de Antropologia da Religião (UNICAMP); miltonrpc@gmail.com

 

O Supremo Tribunal Federal (STF) reuniu, em junho deste ano, representantes do sistema público de ensino, de comunidades religiosas e não-religiosas, organizações da sociedade civil e especialistas do tema, para apreciação da “Ação Direta de Inconstitucionalidade 4439”, ajuizada pela Procuradoria Geral da República, na qual se discute a inconstitucionalidade do “Acordo Brasil-Santa Sé” (Decreto 7.107/2010), que prevê o “ensino católico e de outras confissões” nas escolas públicas brasileiras. Dentre os segmentos ouvidos na Audiência Pública, esta proposta focaliza as posições publicamente defendidas pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, Igreja Assembleia de Deus, Igreja Universal do Reino de Deus e pelos afro-religiosos (Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro e Federação de Umbanda e Candomblé de Brasília e Entorno) também representados no STF. Diante da controvérsia jurídica gerada pelo citado Acordo e dos conflitos oriundos da confessionalização da escola pública, convém saber o que propõem os porta-vozes das congregações acima. Defendem qual regime de laicidade? Admitem a exclusão mútua entre Estado e religião ou insistem nesta última enquanto instituição decisiva na configuração do campo político? Qual modelo de ensino religioso (supraconfessional, fenomenológico, história das religiões, etc.) é recomendado para as escolas públicas? Existe um modelo mais ajustável à diversidade cultural/religiosa do Brasil e, por conseguinte, mais compatível com a laicidade à brasileira?

Palavras-chave: religião; laicidade; ensino religioso; Acordo Brasil-Santa Sé.