RESUMEN GRUPO DE TRBAJO 38

GT 38.  MITOLOGIA, DIVERSIDADE RELIGIOSA E POLÍTICAS PÚBLICAS ENTRE OS AUTÓCTONES NA AMÉRICA OU OUTRAS PARTES DO MUNDO

Coordinadores:

Robert R. Crépeau (Université de Montréal); robert.crepeau@umontreal.ca

Rogério Reus Gonçalves da Rosa (Universidade Federal de Pelotas); rosa.rogeriogoncalves@uol.com.br

Comentarista: Aldo Litaiff, Universidade do Sul de Santa Catarina, aldo.litaiff@ufsc.br

 

 

Sessão I: Mitologia, história e bíblia

 

 

MITOLOGIA GUARANI HOJE

Aldo Litaiff (UFSC)

aldo.litaiff@ufsc.br

 

O objetivo deste paper é apresentar uma síntese dos resultados de minhas pesquisas sobre a relação entre mito e realidade social, efetivada durante mais de trinta anos junto às populações guarani do litoral brasileiro. Em minhas análises proponho uma abordagem sincrônica e diacrônica dos mitos, que esses índios fazem circular atualmente entre suas comunidades. Considerando que o campo mitológico constitui uma importante via de acesso à realidade etnográfica, o mito é visto aqui como uma teoria oral da prática, que utiliza astros e elementos da natureza como ferramentas de conceitualização, ou “suportes ideográficos” (Lévi-Strauss, 1964). Partindo dessas noções provenientes do mundo sensível ou da “realidade empírica natural” (Litaiff, 2008), além de semelhanças e diferenças entre as diversas versões de mito, especialmente o chamado “Ciclo dos Irmãos”, pretendo demonstrar como o discurso e a exegese mítica podem ter relação indireta, ou mesmo direta, dependendo do contexto de enunciação, com a realidade empírica, destacando importantes aspectos concernentes a questões sobre mobilidade, crenças, rituais e territorialidade.

Palavras-chave: Mitologia – Índios Guarani – Epistemologia.

 

 

TRAJETÓRIA DAS POPULAÇÕES GUARANI ÑANDÉVA NA BACIA DO PARANAPANEMA: A MITOLOGIA COMO DISPOSITIVO DE MEDIAÇÃO E ARTICULAÇÃO

Valéria Esteves Nascimento Barros (UFFS)

valeria.barros@uffs.edu.br

 

A discussão que se pretende fazer nessa comunicação tem como um de seus pontos de partida o pressuposto de que mito e história podem funcionar como modalidades complementares de interpretação dos processos sociais. Os dados etnográficos apresentados são o resultado de pesquisas realizadas desde 1999 entre grupos Guarani Ñandéva que vivem hoje no estado do Paraná, na bacia do rio Paranapanema. Acerca desses grupos, é possível levantar fontes históricas que apontam, por exemplo, o fato de que sua distribuição atual reflete uma história de constantes intervenções de diferentes governos ao longo dos últimos séculos, mas principalmente resulta de migrações relativamente recentes, dado que os grupos Guarani que ali viviam anteriormente foram extintos (pelo menos enquanto totalidades organizadas) nos dois primeiros séculos de dominação colonial, por conta da implantação das missões jesuíticas e dos constantes assaltos dos bandeirantes. No entanto, refazer esse trajeto dos Guarani no tempo, revela nossa própria forma de pensar a história. E a intenção do presente artigo seria refletir, a partir dos mitos coletados em campo, quais os interesses e marcos dos Guarani ao longo de sua trajetória nesse território – as narrativas sendo consideradas enquanto modos de consciência social que, ao serem externalizados, explicitam uma reflexão e visão de mundo específicas, que se voltam para temas e preocupações que remetem entre outras coisas para as transformações decorrentes do contato (relações interétnicas, o contato com o campo religioso da sociedade envolvente, processos de conversão religiosa, etc.).

Palavras-chave: Guarani Ñandéva – Memória – História – Mito

 

 

O MITO DE ORIGEM DOS KAINGANG REVISITADO POR UMA MULHER KUJÁ (XAMÃ)

Clémentine Maréchal (PPGAS-UFRGS)

Iracema Ga Rã Nascimento (Kujà Kaingang)

clementine.marechal@yahoo.com

 

Esse trabalho apresenta o mito da “criação da humanidade” por uma mulher Kaingang que revisita o mito de origem dos gêmeos Kamé e Kanheru. Aparecem novos seres com um papel crucial na criação da humanidade, como o kajẽr (macaco) e as árvores respectivamente Kamé e Kanheru, o ingá e o pinheiro. Nesse mito, as árvores que fazem nascer as duas metades complementares Kamé e Kanheru são plantadas respectivamente por um homem e uma mulher que foram criados a partir de uma bola de barro feita por uma criança que brincava com o macaco na beira do rio. Esse jogo ia determinar qual da criança ou do macaco ia ser abençoado pelo “criador”. Após o macaco e a criança criarem duas bonecas de barro e deposita-las na beira do rio, cai um trovão e a criança vai se esconder em um grande buraco. Além da apresentação do mito, que foi elaborado a partir de um contato antigo com a igreja católica, nos interessa levar uma reflexão sobre a utilização das transformações dos mitos em elementos potencializadores de uma cosmologia própria. Trata- se de ver como os Kaingang conseguem potencializar sua cosmologia a través de transformações que foram impulsionadas no intuito de apagá-la. Esse trabalho busca aportar mais perguntas que respostas e será escrito colaborativamente com Iracema Nascimento, quem contou o mito da criação da humanidade. Buscamos assim, ressaltar a busca por uma antropologia cada vez mais simétrica onde os saberes dos pensadores indígenas sejam reconhecidos e valorizados enquanto ciência.

Palavras-chave: Kaingang – Mito de Origem – Kamé e Kanheru – Igreja Católica

 

 

 “A TERRA É VIVA”: O COMEÇO E O FIM DO MUNDO NA MITOLOGIA KAINGANG

Diego Fernandes Dias Severo (IF Farroupilha)

diegofdias@gmail.com

 

A criação mitológica é característica em todo o mundo, as construções narrativas visam saciar anseios do intelecto humano. Entre coletivos ameríndios não é diferente, com a transformação de seu território, do grande impacto que a colonização proporcionou em suas vidas, e da pressão constante sobre sua particularidade étnica é comum que surjam explicações para fenômenos contemporâneos. A população kaingang, presente no planalto meridional brasileiro, têm por perspectiva o dualismo constante e assimétrico, que abre espaço para o Outro, mas o recebe nos moldes de sua organização social. Atualmente, certo pessimismo sentimental tem atingido pesquisadores e mesmo ameríndios quanto a sua “tradicionalidade”, pois muitos membros tem-se convertido a igrejas pentecostais. Nesse sentido, este trabalho objetiva analisar narrativas míticas sobre o inicio e o fim do mundo, elaboradas por intelectuais, kujã e lideranças kaingang, textos e relatos orais atuais e compará-los com narrativas de outros momentos históricos. O emaranhado disperso e constante que mantêm o discurso no fio do tempo apresenta um laço comum, ou seja, o enlace estabelecido pela “assimilação” ameríndia não representa uma dissolução “das coisas dos antigos” e sim sua redefinição, ou reconstrução atualizada de momentos que são pensados, postos em contraste e analisados precisamente. Assim, elementos ocidentais são indigenizados no sentido de Sahlins, o elemento interior é identificado no exterior, dessa maneira signos nativos são identificáveis em “Deus”, na força como tõn, na espiritualidade da matéria, nas plantas, nos animais.

Palavras-chave: Kaingang – Mitologia Ameríndia – Terra – Igrejas Pentecostais

 

 

MEMORIA VIVA: “LA TRAGEDIA – MILAGRO DE LOS ANDES” EN UNA ETNOGRAFÍA DEL GRUPO DE SEGUIDRES “RE-VIVEN!”

 

Shalako Scotto Walker

 Universidad de La República

sh4l4ko@gmail.com

 

Este trabajo presenta el adelanto de mi etnografía sobre el grupo de seguidores denominado “Re-Viven. La tragedia de los Andes-El Milagro de los Andes”. En el mismo indago el proceso que hace posible las reconfiguraciones de sentido de los relatos y memorias del accidente ocurrido en los Andes en el año 1972 protagonizado por jóvenes uruguayos provenientes del colegio católico Stella Maris. Se procuró un abordaje antropológico-hermenéutico que permita aunar las disyuntivas entre “relato” y “vida”, que parecen alejar el relato de la vida en tanto que vivida y confina el relato en el campo de la ficción (Ricoeur, 1984).  De esta forma es posible comprender cómo la historia ha ayudado, -a quienes se identifican con ella-, a lograr superar “sus propias cordilleras”. Además exploró el tratamiento del “Milagro de los Andes” como un mito nacional (e internacional), aunque esto definitivamente no signifique reificar La Historia de los Andes como un “mito en sí”, sino en este caso en relación con la “cultura uruguaya” en su devenir histórico de representaciones emblemáticas y mitos en permanente actualización y reactualización que hacen posible la particular mito-praxis Uruguaya de “nación laica” (Guigou, 2000). Con respecto al abordaje empírico, se participó en las prácticas del grupo, en su relación con los lugares de Memoria relevantes, como la “peregrinación” al lugar del accidente en la cordillera de los Andes, en donde aparecen relaciones de sentido entre el mundo humano y no-humano.

Palabras Clave: Mito – Religiosidad – Memoria – Identidades – Narrativas.

 

 

 

Sessão II: Mitologia, diversidade religiosa e águas

 

 

LA BIBLIA DE LOS INUIT DE CANADÁ Y LA DE LOS B'LAAN DE FILIPINAS: INCORPORACIONES HISTÓRICAS Y TRANSFORMACIONES MÍTICAS

Frédéric Laugrand. Université Laval

Frederic.Laugrand@ant.ulaval.ca

 

A partir de materiales etnográficos recogidos durante los últimos veinte años y varios comentarios inuit y bilaan sobre la Biblia, este trabajo examina cómo dos pueblos indígenas de América del Norte y Asia, reescriben este gran mito. Se analiza aqui el proceso de incorporación pero especialmente el de reconfiguración. Parece que los narradores indígenas seleccionan a las historias que mas entienden por razones culturales o que guardan por razones apostolicos, pero que transforman francamente cuando esas les parecen incompatibles con sus culturas. Así opera la indigenización del cristianismo, un proceso que la antropología, hasta ahora, quiza ya no ha tomado en serio para captar la multiplicidad de los cristiasnismos indígenas. Estos nunca pueden ser réplicas del cristianismo pero unicamente adaptaciones.

Palabras clave: Inuit – Bilaan – Biblia – Reconfiguración – Cristiasnismos Indígenas

 

 

INIMIGOS DE OUTRORA, INIMIGOS DE AGORA: ALGUMAS RELAÇÕES POSSÍVEIS ENTRE MITOS E O LIVRO DE SÃO CIPRIANO ENTRE OS TICUNA (ALTO SOLIMÕES - AMAZONAS - BRASIL)

 

Maria Isabel Cardozo da Silva Bueno PPGSA/UFRJ mariabelcardozo@gmail.com

 

Este trabalho pretende relacionar mitos dos Ticuna (Alto Solimões – Amazonas - Brasil) às histórias que cercam as acusações de “feitiçaria” através do uso do livro de encantações e bruxedos de São Cipriano num grande aldeamento da etnia, que se autodenomina Magüta. Tal reflexão integra a pesquisa de doutorado da autora, que buscou investigar as relações entre humanos e sobrenaturais nesse contexto específico, com o objetivo de refletir sobre a forma como tais relações perpassam o relato mítico, o ritual de puberdade feminino, as acusações de enfeitiçamento e agressão – tanto via pajé (yuücu), quanto via Livro de São Cipriano –, e as decorrentes mortes por enforcamento, conforme coletado em trabalho de campo realizado entre os anos de 2010 e 2012. Nessas condições, no trabalho aqui apresentado, serão relacionados alguns mitos sobre inimigos primordiais dos Ticuna e as histórias contadas recentemente sobre os supostos usuários/leitores do Livro. Estes últimos passariam por um processo metamórfico que implicaria em sua transformação em ngo’o (categoria que engloba seres nefastos, muitas vezes referidos como “bichos” na tradução nativa para o português), mesma alcunha atribuída aos inimigos dos tempos primevos.

Palavras-chave: Mitologia – Feitiçaria – Terras Baixas Sul-Americanas – Cosmologia

 

 

 

A COMUNICAÇÃO NA CULTURA DE PENTECOSTES: UM ESTUDO COM A RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA

Fernanda Ferrari (PPGA-UFGD)

f.ferraripsi@hotmail.com

Graziele Acçolini (UFGD)

grazieleaccolini@hotmail.com

 

Neste trabalho proponho lançar um olhar sobre o sistema de comunicação humana, também chamado por Bateson, de ecologia do espírito. Tais reflexões sobre a conectividade entre mente, natureza, corpo e espírito, serão realizadas através do estudo sobre os mitos/crenças e ritos de natureza religiosa, especificamente em um grupo pertencente ao catolicismo denominado Renovação Carismática Católica, que possui raízes no pentecostalismo cujo princípio é a crença no Espírito Santo, utilizando a prática de rituais que buscam favorecer o processo de reorganização da saúde física, emocional e espiritual da pessoa que sofre. A forma como as mensagens corporais e emocionais são significadas e expressas, estão subordinadas a uma linguagem que está inserida num contexto social e cosmológico, portanto, a desordem está intimamente relacionada aos mitos que a sustentam, confirmam e conferem legitimidade. Assim, as metáforas ocupam um lugar importante nesse processo de reorganização e cura, pois através delas, é possível tornar pensável uma situação antes desordenada internamente. Esta ideia relativiza a noção de que as patologias são fenômenos de ordem exclusivamente biológica, abrindo caminho para novas intervenções. Considera-se então, que a eficácia na comunicação contribui para a harmonia entre mitos, ritos e a reorganização da saúde. Tal integração oferece a possibilidade de se identificar inteligivelmente a conexão entre sintoma e afecção, corpo e espírito; o que sugere uma interdependência e conectividade entre esses e outros dualismos.

Palavras-chave: Pentecostalismo – Renovação Carismática Católica – Comunicação – Crença – Ordem

 

 

CONHECIMENTO E AÇÃO RELIGIOSA NO MARROCOS: MOQADDEMINE E JNUN NAS ARENAS RITUAIS DA CONFRARIA HAMADSHA

 

Bruno Ferraz Bartel. PPGA/UFF

brunodzk@yahoo.com.br

 

O artigo explora os saberes e as práticas rituais desenvolvidas pelos especialistas religiosos (moqaddemine) da confraria marroquina Hamadsha que visam propor um fim aos infortúnios vividos por indivíduos. Esses agentes religiosos operam uma interação com os jnun (seres invisíveis feitos de fogo que compõem o universo simbólico da religião islâmica) que, segundo a crença local, são os responsáveis pela produção de determinadas ações maléficas aos humanos. No Marrocos, esses seres adquirem uma agência na realidade através do valor social de infertilidade associado a eles, que geralmente tendem a ser interpretadas como a manifestação de doenças, situações de desemprego ou crise financeira, conflitos conjugais, dificuldades de obter um casamento ou pela incapacidade de gerar filhos por parte das mulheres. Esta pesquisa faz parte de um período de 10 meses de trabalho de campo entre janeiro e novembro de 2012, na vila de Sidi ‘Ali, localizada na província de Meknes-Tafilalet, no Marrocos. O meu argumento procura demonstrar que os moqaddemine da Hamadsha realizam uma manipulação das formas simbólicas visando à supressão da situação de crise de vida dos indivíduos através da circulação das benções (baraka) dos santos identitários da Hamadsha. O culto de santos no país adquire um papel importante através de ideias e histórias concretas a partir de determinados lugares (santuários), ritos específicos, circuitos de peregrinações e, inclusive, festas vinculadas a essas personalidades. Os infortúnios expressos publicamente pelos indivíduos durante a elaboração dos rituais específicos da Hamadsha apresentam alguns desdobramentos relevantes aos processos terapêuticos existentes.

Palavras-chaves: Islã – Conhecimento – Ritual – Processos Terapêuticos – Infortúnios

 

 

FESTA DOS NAVEGANTES E IEMANJÁ: A OCEANOGRAFIA TRANSPASSADA POR UMA EPISTEME MITOLÓGICA

 

Carolina Bittencourt (PPGAnt/UFPel)

carol.amorimsb@gmail.com

                                                                       Gustavo Goulart Moreira Moura (NUPAUB/USP, PRODEMA/UESC)

gugoreira@gmail.com

 

A cidade de São José do Norte, Rio Grande do Sul, Brasil, vive em uma condição de quase insularidade, entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, com suas margens delineadas por colônias de pesca. No século XX o setor pesqueiro sofreu uma série de transformações técnico-científicas que geraram perturbações no modo de vida dos pescadores artesanais. A ciência afastou-se do saber-fazer tradicional levando à crise ambiental, materialização da crise epistemológica da própria ciência moderna que fundamenta-se na separação entre cultura e natureza. Esse trabalho adentra o cosmos aquático das festas religiosas de Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes de São José do Norte a procura de continuidades e descontinuidades produzidas entre cultura e natureza, humanos, água, seres aquáticos e terrestres. Identificando as permeabilidades existentes entre essas categorias almeja-se estimular deslocamentos epistemológicos no que concerne a relação entre humanos/não-humanos/natureza. Na Festa dos Navegantes sobre a água estuarina, nas manifestações de doçura a beira d'água salgada na Festa de Iemanjá, com presença de Iara, formam-se territórios de co-acessibilidade que explicitam o vínculo entre humanos e natureza, entre terra e mar, doce e salgado. Iemanjá e a santa dos navegantes acrescentam dimensões de compreensão do comportamento, espaço e tempo da água, pois tratam de aproximar o infinito e desconhecido da episteme humana.

Palavras-Chave: Iemanjá – Nossa Senhora dos Navegantes – Pescadores Artesanais

 

 

DA GRANDE ENCHENTE AO DILÚVIO UNIVERSAL. NARRATIVAS KAINGANG EM CONTEXTO DE PLURALISMO RELIGIOSO

 

Robert R. Crépeau. Université de Montréal

robert.crepeau@umontreal.ca

 

Desde as publicações de Telêmaco Morocine Borba, Egon Schaden, etc., de versões da narrativa kaingang do dilúvio até as mais recentes versões citadas por diversos pesquisadores, tratarei nesta comunicação sobre a atualidade e a constante atualização deste importante mito. De fato, todas as versões estão relacionadas a contextos de pluralismo religioso, influenciados ao longo da historia pelo catolicismo do colonizador e, mais recentemente, pelas diversas denominações evangélicas. A comunicação tratará de uma comparação de varias perspectivas contrastadas, porém compatíveis a partir de diversas versões da narrativa que oscilam entre uma grande enchente e o Dilúvio universal.

Palavras-Chave: Kaingang – Narrativa – Mito – Enchente – Dilúvio Universal

 

 

Sessão III: Mitologia, questão fundiária e concepções de saúde

 

 

O NEGRINHO DO PASTOREIO E O SACI-PERERÊ: MITOLOGIA, DIVERSIDADE RELIGIOSA E POLÍTICAS PÚBLICAS ENTRE QUILOMBOLAS, KAINGANG, PESCADORES ARTESANAIS E BENZEDEIRAS NO BRASIL

Rogério Reus Gonçalves da Rosa (UFPel)

rosa.rogeriogoncalves@uol.com.br

 

No artigo A Relação Afro-Ameríndia do Negrinho do Pastoreio e do Saci-Pererê na Mitologia (ROSA, 2013) conectei esses dois importantes personagens da literatura brasileira, além de outros, a uma constelação de narrativas mitológicas, rompendo com as dicotomias apresentadas pelos folcloristas ao pensá-los separados por grupos étnicos, fronteiras geográficas e ontologias judaico-cristãs. Nesse novo trabalho, abordarei a relação dos ilustres Negrinho do Pastoreio e Saci-Pererê, entre outros, a partir de etnografias e coleta de narrativas junto a quilombolas, a Kaingang, a pescadoras artesanais e a benzedeiras, situados respectivamente na região sul, norte e noroeste do Rio Grande do Sul. A partir disso, o objetivo do texto será demonstrar a importância desses personagens míticos nas cosmologias afro, indígena e tradicional, configurando uma diversidade espiritual e religiosa que deve ser considerada pelas políticas públicas do Estado-nação.

Palavras-Chave: Mitologia – Negrinho do Pastoreio – Saci-Pererê – Diversidade Espiritual e Religiosa – Políticas Públicas

 

 

EL ‘TRICKSTER’ EN LAS COSMOLOGÍAS INDÍGENAS DE QUEBEC: CONTINUIDADES Y TRANSFORMACIONES MÍTICAS DE CARCAJOU (WOLVERINE)

Laurent Jérôme. Université du Québec à Montréal

jerome.laurent@uqam.ca

 

A partir de materiales recogidos en tres naciones indígenas de Quebec (Atikamekw, Naskapi y Innu), analizamos las características de un personaje mítico presente de forma recurrente en muchas historias de grupos algonquinos de Quebec, Carcajou (Wolverine). Documentamos este personaje en cosmologías locales, tanto en los sistemas religiosos tradicionales que en las grandes religiones como el catolicismo o movimientos evangélicos. Además, mostramos el poder contemporáneo de este mítico personaje en literatura (comics y juventud) y en las políticas institucionales de salud.

Palabras clave: Carcajou – trickster – cosmologias indígenas – humor

 

 

MITOLOGIA E TERRITÓRIO ENTRE O POVO KULINA

Lori Altmann (UFPel)

lori.altmann@yahoo.com

 

O corpus mitológico pode ser entendido como forma de conhecimento ou narrativas sobre si, os “outros” e o mundo. A mitologia circunscreve ou configura a compreensão da realidade, enquanto esta modifica e reformula o significado daquela num movimento constante, para legitimar, explicar ou dar sentido a novas experiências.  Pretendo revisitar mitos do povo indígena kulina, da Amazônia Ocidental brasileira e peruana e, desta forma, mergulhar em suas questões existenciais e cotidianas, buscando aproximação com sua cosmovisão e compreensão de contradições enfrentadas na contemporaneidade, em especial, na demarcação de seus territórios. Os Kulina elaboram uma explicação tradicional dos fatos atuais, fazendo uma hermenêutica de seus mitos, produzindo, assim, novos sentidos em sua atuação concreta e cotidiana na história. Trago o mito Dapo pora icanabaqquijari, “moradores da mata”, dsama abari, ou “aqueles que sabem”, que faz referência ao totemismo Kulina e sua divisão em gentes ou madija, nominadas por animais e vegetais, referindo-se ainda ao casal ancestral ini e idi dsomaji, “avó e avô onça”. O herói ancestral, nomeador dos madijdeni e criador de sua cultura, é aquele que designa o lugar onde cada subgrupo irá morar, e também o lugar dos estrangeiros, “os outros”, “os que não sabem nada”. Menciona o cantar, o dançar, o comer em conjunto, o ritual e, ao final, a sovinice, como atitude questionável, mas, ao mesmo tempo, produtora do modo de ser kulina, no contexto de invasão de seus territórios e de seu engajamento no extrativismo da borracha, a partir do início do século XX.

Palavras Chaves: mitologia – Madija – kulina – território.

 

UTOPIAS DO CRISTIANISMO KAINGANG: REDES POLÍTICO-RITUAIS NO ALTO URUGUAI

Marília Sene de Lourenço

 PPGAS-Museu Nacional

lilalautrec@gmail.com

 

Esta comunicação aborda aspectos comuns à relação do povo Kaingang com diversas coletividades no Brasil meridional na configuração do que denominam "luta pela terra". Proponho sublinhar os contornos míticos da noção de "luta", associada pela literatura etnológica à experiência contínua de humanização kaingang, a partir da expansão político-ritual de parentelas lideradas por grandes chefes. Se, por um lado, os líderes kaingang são conhecidos por sua participação em movimentos sociais, a pesquisa etnográfica evidencia uma faceta pouco estudada de sua territorialização: a ploriferação de igrejas pentecostais nas aldeias. A partir de um trabalho de campo de doze meses na região do Alto Uruguai, pretendo discutir a territorialidade kaingang sob duplo aspecto: suas expectativas de demarcação territorial no seio dos movimentos sociais de verve católica e de ascensão à vida eterna através da ritualização evangélica. À primeira vista, o engajamento de famílias em redes evangélicas parece implicar seu afastamento da luta. Minha hipótese é de que o contato com estrangeiros – sejam eles católicos ou evangélicos, progressistas ou conservadores – e com os não humanos que trazem consigo, potencializa anseios existenciais dos Kaingang. Tais anseios parecem remeter a uma escatologia messiânica comum aos povos jê, em que a estabilização da vida entre parentes é marcada por transformações sucessivas na sua relação com a terra.

Palavras-chave: Kaingang – Povos Jê – Territorialidade – Messianismo – Cristianismo

A CURA DA AMÉRICA SOB UMA PERSPECTIVA ETNOLÓGICA: PRÁTICAS DE CURA, BENZIMENTOS E INDIANIDADE NA REGIÃO MISSIONEIRA DO SUL DO BRASIL E NORTE DO URUGUAI

 

Rojane Brum Nunes

PPGAS-UFRGS

rojanebrum.nunes@uol.com.br

 

A partir de uma pesquisa etnográfica que vem sendo realizada junto a benzedeiras e benzedores na (da) região missioneira do RS, no sul do Brasil e no norte do Uruguai, este texto irá refletir sobre práticas de cura, benzimentos e indianidade. Os benzimentos, ao adentrarem nas veredas dos processos de saúde-doença, revelam-se enquanto um sistema aberto, relacional e dinâmico com alteridades humanas e não-humanas, para além do dualismo redutor e humanista do paradigma biomédico ocidental. Nesse sentido, os benzimentos enquanto práticas de cura pautadas na oralidade, na gestualidade e na espiritualidade, através dos “dizeres e objetos que curam”, desvelam relações e (re)atualizações de sócio-mito-cosmo-ontologias ameríndias, através de um processo de reinvenção da cultura, que se caracteriza pela relação de abertura e predação para com o outro (afro, indígena, branco). Sob uma perspectiva etnológica relacional, o trabalho de campo realizado na região das missões jesuítico-guarani, vem apontando a importância em apreender a relações entre as práticas de cura das benzedeiras missioneiras e o xamanismo mbyá-guarani, o que será problematizado a partir de dados etnográficos preliminares. Por outro lado, as trajetórias sociais e as narrativas biográficas revelam o entre-lugar étnico das benzedeiras e benzedores, na medida em que não se definem nem como brancos, nem como índios, mas que, assim como estes, estão a curar a América, através de práticas e narrativas que “curam” e se “entrecruzam” na América Latina.

Palavras-chave: Benzedeiras – Práticas de Cura – Xamanismo Mbyá-Guarani – Indianidade.

 

REFLEXÕES SOBRE A EXECUÇÃO DE POLÍTICA PÚBLICA JUNTO A COLETIVOS GUARANI NO RIO GRANDE DO SUL, BRASIL: ESPAÇO RITUAL E BEM-VIVER

Mariana de Andrade Soares

 EMATER/RS-ASCAR

msoares@emater.tche.br

 

No contexto político-social pós-Constituição Federal de 1988, a conquista de direitos pelos povos indígenas exige o estabelecimento de uma nova relação com o Estado (e suas respectivas instituições), visando à construção de políticas públicas específicas. O objetivo deste paper é analisar a experiência vivenciada com coletivos Guarani no Rio Grande do Sul, Brasil na execução de políticas de etnodesenvolvimento que buscou atender sua reivindicação pelo apoio do poder público no processo de construção de suas casas de rezas (opy). Diante da realidade da falta de terras e/ou a ocupação de terras ambientalmente inadequadas, lideranças e representantes Guarani ocupam o seu lugar no diálogo interétnico e acionam a política nacional para garantir o seu espaço ritual e a partir dele garantir o que acreditam ser o seu bem-viver.

Palavras-chave: Coletivos Guarani – Políticas Públicas – Dialógo Interétnico – Bem Viver.