RESUMEN GRUPO DE TRBAJO 117

GT 117. MULHERES INDÍGENAS NAS TERRAS BAIXAS DA AMÉRICA DO SUL

Coordenadores:

Oiara Bonilla - Doutora em Antropologia Social e Etnologia. Professora do Departamento de Antropologia (GAP). Universidade Federal Fluminense; oiarabonilla@gmail.com

Christopher Hewlett. Doutor em Antropologia Social. Centre for Amerindian, Latin American and Caribbean Studies (CAS). Department of Social Anthropology. University of Saint Andrews; ch628@st-andrews.ac.uk

Fabiana Maizza. Doutora em Antropologia. Centre d’enseignement et de recherche en Ethnologie Américaniste EREA du LESC MAE - Université Paris Ouest- Nanterre La Défense; fabimaizza@hotmail.com

Debatedora: Beatriz Matos - Doutora em Antropologia Social. PPGAS - Museu Nacional. Universidade Federal do Rio de Janeiro; irekaron@gmail.com

 

 

Sessão 1 -  Fazendo pessoas

 

 

ETNOLOGIA E FEMINISMO

Vanessa LEA (UNICAMP)

 

A apresentação visa discorrer sobre as contribuições do feminismo à etnologia indígena.Através de exemplos diversificados, procurarei mostrar que o valor hegemônico de “igualdade de gênero” é um problema Ocidental que os proponentes de globalização visam universalizar. Argumentarei que o feminismo é englobado pela questão de gênero e que os transsexuais e travestis demonstram que o feminino não é monopólio de quem nasceu mulher. Procurarei refletir sobre as transformações em curso entre os Metyktire-Mebengokre mediadas pelo dinheiro, “benefícios" e monopolização da esfera pública pelos homens, argumentando que embora as mulheres deleguem o mundo externo aos homens, são as matri-casas as unidades exogâmicas que fazer circular os homens e que controlam as riquezas tradicionais - nomes pessoais e prerrogativas que ocasionam as grandes cerimônias. Ou seja, homem e mulher, masculino e feminino, poder e submissão, não são equações contínuas e equivalentes, mas sim conceitos que exigem reflexão.

 

 

FAZER ROÇAS: A PRODUÇÃO DE PESSOAS E RELAÇÕES PELAS MULHERES MEBENGOKRÉ-XIKRIN.

Clarisse COHN (UFSCar)

Stéphanie TSELOUIKO: (EHESS/UFSCar)

 

Esta comunicação pretende iluminar uma parte importante da produção de pessoas e coletivos pelos Mebengokré-Xikrin e que tem sido especialmente obliterada, a das mulheres. Como tem apontado Vanessa Lea há tempos, o viés masculino da etnologia produzida sobre os Jê tem impedido que se perceba a atuação das mulheres na produção destes coletivos. Concordando com ela neste ponto, tomamos porém outra via para elucidar esta atuação, apontando para a produção de roças e como ela nos permite perceber o modo como as mulheres têm um papel ativo e fundamental na produção de corpos, pessoas, parentesco, coletivos e rituais. Fazer roças é um atividade que envolve o matrimônio, a maternidade, a relação com as mulheres de sua família, a entrada na rede de trocas e reciprocidade. É também meio de produzir corpos, parentesco e pessoas fortes e bonitas na produção cotidiana de corpos e ritual de nomes belos, além de parentesco e coletivos, para o que os produtos das roças são essenciais. Cada roça é ainda um produto das biografias pessoais e das relações estabelecidas por cada mulher com parentes e nas relações de alteridade. Assim, a comunicação pretende elucidar a importância da produção feminina na produção de pessoas e parentesco e na produção mesmo da condição mebengokré. Por fim, elabora-se uma nova atuação, política e coletiva, das mulheres, a partir de uma experiência recente de abertura de uma roça coletiva feminina com o financiamento de projetos de gestão territorial, como uma continuidade e transformação do que já havia sido exposto.

 

 

MULHERES MBYA-GUARANI E OS SABERES ACERCA DE CRIAR CRIANÇAS: APROXIMAÇÕES E DISTANCIAMENTOS NOS DIÁLOGOS ENTRE ETNOLOGIA GUARANI E ESTUDOS DE GÊNERO (BRASIL)

 

Suzana CAVALHEIRO DE JESUS (UNIPAMPA)

 

Esta comunicação dedica-se a refletir sobre saberes femininos mbya-guarani acerca dos processos de criar crianças, colocando em diálogo debates dos campos da etnologia indígena e dos estudos de gênero. O texto deriva da minha tese de doutorado, cujo objetivo foi compreender processos de produção, circulação e transformação de conhecimentos mbya-guarani que configuram o modo tradicional de vida destes povos (nhande reko) e que derivam dos desafios contemporâneos de produzir pessoas “na medida”, ou seja, pessoas mbya que saibam dosar a alteridade advinda do mundo não indígena (jurua). Argumenta-se que tais aspectos organizam-se em torno dos modos de criar crianças, que por sua vez orientam-se a partir de representações de gênero, inscritas em dois âmbitos: 1) a produção feminina de corpos, desenvolvida através dos resguardos menstruais, dietas alimentares, cuidados pré e pós-parto e educação das crianças; e 2) a complementaridade feminina e masculina presente nas narrativas míticas e nos aconselhamentos recebidos por homens e mulheres adultos acerca das relações de conjugalidade e das implicações em torno da maternidade e paternidade, bem como no compartilhamento das responsabilidades dentro do grupo doméstico. Com base nisto, o presente trabalho discute modelos ideais de criar crianças, narrados a partir da ideia de complementaridade feminina e masculina; e modelos reais, vislumbrados no cotidiano da aldeia, nos quais as mulheres são responsáveis por esse processo de criação.

 

 

A ANTA EM SEGREDO: FAZENDO GENTE ENTRE OS RIKBAKTSA (MACRO-JÊ) DO SUDOESTE AMAZÔNICO

Adriana ATHILA (UFRJ)

 

Através de uma etnografia de atributos da vida cotidiana e ritual dos Rikbaktsa, do sudoeste amazônico, este trabalho pretende reconsiderar o caráter oposicional e de precedência ortodoxa entre domínios e espaços descritos na etnologia sul-americana como “masculino” e “feminino”, “cerimonial” e “cotidiano”, “político” e “doméstico” e outros contrastes deles derivados. Em algumas etnografias, as mulheres Rikbaktsa apareciam ou submetidas a um dito domínio masculino ou como estabelecendo com este uma dócil relação de complementaridade. Conforme argumentarei, ao mesmo tempo em que este povo não parece se ocupar em associar ou dividir mulheres e homens em “domínios” ou “reinos” dentro de uma hierarquia permanente, as mulheres exercem uma peculiar maestria na produção da coletividade, das pessoas e de suas relações, antes mesmo do “nascimento” propriamente dito, como também ao longo da vida de alguém.

Os Rikbaktsa definem um mundo no qual corpos, pessoas e uma infinidade de entidades, por admitirem diferenças apenas graduais, são impelidos a relações potencialmente transformativas. Trata-se de um universo em disputa, onde a mulheres Rikbaktsa têm tido papel cada vez mais central, desde a política cotidiana da produção de seres e coisas até dimensões mais amplas, de caráter supra-comunitário. Elas têm, potencial e oficiosamente, a prerrogativa de “continuidade” e “extinção”, sobre segmentos sociais e mesmo sobre os Rikbaktsa, como povo. Manipulam o “dado biológico de base nativo”, concorrendo com o aspecto normativo da produção da coletividade e inaugurando circuitos paralelos de controle e, sob certa perspectiva, de sabotagem da produção de pessoas por determinadas linhas de descendência.

 

 

CULTIVANDO MULHERES

Joana CABRAL DE OLIVEIRA (USP/ CEstA)

 

Irei explorar a questão do gênero e da construção das mulheres através das relações de cultivo entre os Wajãpi do Amapari. Os Wajãpi são agricultores apaixonados e as mulheres são as principais responsáveis pelo cultivo das roças. Por meio dos trabalhos diários de colheita e processamento dos alimentos as mulheres de diversas idades, ligadas por laços de parentesco, compartilham saberes e substâncias que são fundamentais para o cultivo de sua própria condição feminina. Aqui pretendo explorar a noção de cultivo para além de seu uso específico ligado ao processo de cuidados com as plantas, intento estender e testar os rendimentos dessa ação (o cultivar).

 

 

Sessão 2 – Aliança e Cosmopolítica (1)

 

 

MAESTRAS DEL KENE SHIPIBO-KONIBO: MUJERES DE PENSAMIENTO FUERTE EN EL TRÁNSITO URBANO-RURAL (PERU-BRASIL)

 

Luisa Elvira BELAUNDE (Museu Nacional/ UFRJ)

 

En base a entrevistas con Reshin Jisbe – Olinda Silvano (miembro del Comité de Madres Artesanas "Menin Ainbo - mujeres creativas" de la Comunidad Shipibo de Cantagallo - lima), esta ponencia recorre algunos aspectos estéticos, económicos y vivenciales de la producción y venta de ropa cubierta con diseños kene en la ciudad de Lima. El énfasis colocado sobre la fuerza de su pensamiento (koshi shinan) como conexión entre conocimientos ancestrales, recuerdos personales y modos actuales de crianza de los hijos, es una llave para abordar sus testimonios sobre la inserción en la urbanidad. El pensamiento se “prende en las prendas”, según su decir, y se exterioriza en los cuerpos que las llevan puestas, generando un espacio gráfico adherido a la piel que actúa sobre la persona y su alrededor. La experiencia sinestésica del kene revela una idea de superficie diferente de una frontera bidimensional pasiva. Lejos de encerrar el cuerpo separando nítidamente el interior y el exterior, el enrejado de los diseños abre un nuevo campo de visualidad donde la mirada puede penetrar y la agencialidad de seres ancestrales se manifiesta, trayendo al presente las jornadas por los ríos y las fiestas del pasado que congregaban a las familias del Ucayali para festejar el crecimiento de sus hijos, sus logros y rivalidades. El éxito de una maestra del kene para vender sus prendas, generar ingresos monetarios y así poder educar a sus hijos para que estos alcancen a ser “profesionales” surge, por tanto, del pensamiento propio de cada mujer y no puede ser resumido a una identidad colectiva ni una calificación étnica generalizada. La tensión permanente entre autonomía personal y organización comunitaria, característica de los asentamientos amazónicos, es reactualizada en la ciudad y permea la vida de pareja y familiar de las mujeres, así como los modos de organización de los comités de artesanas.

 

 

DE FÚRIAS, JAGUARES E MULHERES: COSMOPOLÍTICA E SEXUALIDADE ENTRE OS KAIOWA E GUARANI EM MATO GROSSO DO SUL (BRASIL)

Lauriene SERAGUZZA (UFGD)

 

Este ensaio propõe reflexões sobre cosmopolítica e sexualidade entre os Kaiowa e Guarani em Mato Grosso do Sul a partir de uma etnografia que privilegia o ponto de vista das mulheres sobre estas categorias. Esta análise foca sobremaneira a agência feminina nas grandes assembleias de mulheres Kaiowa e Guarani, as Aty Kuña. Nestes espaços um modo específico de fazer política aparece nas discussões sobre os temas do cotidiano que atingem diretamente estas mulheres e o seu entorno. Nas assembleias as mulheres majoritariamente são donas da fala pública, pois, são elas que tocam as discussões que perpassam, também, por suas construções de sexualidade e refletem diretamente no modo como se organizam e fazem política na atualidade os Kaiowa e Guarani. Desta forma analisarei 1) a participação das mulheres nestes espaços e suas possibilidades cosmológicas; 2) a discussão sobre sexualidade e relações de gênero suscitada pelos participantes das assembleias; 3) relações entre cosmopolítica e sexualidade. Estas três pontuações vinculam-se às transformações nos estilos de criatividade dos Kaiowa e Guarani e afetam suas relações de gênero, sexualidade e política com os humanos indígenas e não indígenas e os não humanos, de modo a contribuir com a reflexão da discussão aqui proposta para a revisão de categorias tidas como dadas, frente a novas possibilidades conceituais em etnologia.

 

 

CASAS DE ALVENARIA E CASA MEBÊNGÔKRE: CONCEPÇÕES XIKRIN SOBRE FAMÍLIA DOS BRANCOS

Thais MANTOVANELLI (UFSCar)

 

Os Xikrin da Terra Indígena Trincheira-Bacajá (TITB) vivem atualmente os impactos da construção do complexo hidrelétrico de Belo Monte. Algumas ações de mitigação e compensação têm sido desenvolvidas por meio da execução de alguns setores do PBA Componente Indígena (Plano Básico Ambiental), realizado, atualmente, por duas empresas, que por sua contratam outras para execução de algumas das medidas. O presente artigo discute uma dessas medidas de compensação: a construção, nas aldeias, de casas de alvenaria. A partir da consideração das mulheres Xikrin acerca da construção dessas casas, o texto busca problematizar a noção de família dos brancos, enquanto destoante dos modos mebêngôkre de produção de parentes, que tem na casa [ká¿–kre] um local fundamental de transmissão dos modos corretos de comportamento, alimentação, crescimento e construção de pessoa. As casas de alvenaria que estão sendo construídas nas aldeias são consideradas pequenas pelos Xikrin que, constantemente, afirmam seu descontentamento. A partir da consideração negativa das mulheres Xikrin sobre as casas de alvenaria, o artigo propõe dar destaque ao contraste entre a concepção de casa e família nuclear dos brancos, do ponto de vista Xikrin, e a concepção de casa e família extensiva como modo de ser mebêngôkre. Ao evidenciar essa imagem contrastiva, objetiva-se colocar em perspectiva a construção das casas de alvenaria como investimento das ações do PBA e o conceito de casa mebêngôkre como lugar de produção de parentesco, ou, de modo mais geral, casa feita pelos brancos como edifício ou arquitetura e fonte de investimento de recurso financeiro/mitigatório e casa como espaço de produção de pessoa.

 

 

NARRATIVAS COSMOPOLÍTICAS INSPIRADAS EM MULHERES GUARANI-MBYA

 

Aline de Oliveira Aranha (USP, CEstA)

 

É possível verificar no cenário atual diversas transformações nas formas e estratégias mbya de liderança e ação política. Estas transformações têm grandes efeitos na fabricação dos corpos das pessoas guarani e emergem no embate cada vez mais (in)tenso com a política e modo de ser jurua (não-indígena) e se inserem em contextos como os de luta pela demarcação de terras e salvaguarda de direitos indígenas, tal como em projetos de desenvolvimento ou resgate cultural sob a rubrica da “cultura”. Estamos diante também de um contexto cada vez maior de valorização e protagonismo de mulheres (kunhãgue) mbya, assim como da abertura e conquista de espaços de fala e atuação política antes majoritariamente ocupado por homens, o que reflete a complementaridade e fortalecimento mútuo de ambos sujeitos na construção de pessoas e coletivos. Partindo de algumas narrativas centradas nas trajetórias das mulheres que habitam a Terra Indígena Tenonde Porã (São Paulo-SP) buscaremos realizar uma cartografia de seus discursos e práticas: como a relação entre a cosmopolítica guarani e as políticas públicas do Estado é agenciada de um modo propriamente guarani, revelando forças e resistências produtivas e criativas e elucidando o intenso trabalho de tradução e transformação implicado nessas amplas redes de relações que compreendem a dinâmica intra, inter e extra aldeia. A estratégica pedagógica de formação de jovens lideranças é parte do engajamento de professoras mbya que atuam então enquanto formadoras das novas guerreiras (xondária kuéry) e guerreiros (xondáro kuéry). Enquanto tradutoras de mundos, essas kunhãgue atuam também como diplomatas cosmopolíticas, que ao transitar por diferentes códigos, agenciam diferentes mundos onde tudo é política e muito perigoso.

Palavras-chave: Guarani-Mbya; mulheres mbya; liderança política; cosmopolítica contra-Estado;

 

 

Sessão 2 – Aliança e Cosmopolítica (2)

 

 

DOS CASAMENTOS PRETENDIDOS, “SOLTEIRICES FORÇADAS. PARENTESCO, SEXUALIDADE E ALIANÇA EM “NEGOCIAÇÃO” ENTRE CASAIS DE MULHERES TICUNA, ALTO SOLIMÕES, AMAZONAS

 

Patrícia CARVALHO (UNICAMP)

 

“Somos, assim, solteiras no dizer do parentesco mais organizado com as palavras dos antigos. Elas ensinam casar bem é homem com mulher de clã diferente (...). Fazemos certo parte da regra, por isso, somos solteiras. Somos sem marido porque queremos que nossas companheiras virem esposas, mas não deixam”. O que ocorre quando além da posição prescrita pela exogamia clânica, o sexo do parceiro importa ao casamento? Para refletir sobre tal dilema, tomamos alguns casos de conjugalidade entre “casais de mulheres” ticuna, de suas “solteirices forçadas” como um problema de parentesco. Elas expõem que pretendem com suas “negociações” “oficializar o romance entre primas”, “ter papel passado para virar o romance proibido e vigiado em compromisso verdadeiro”, isto é, “reconhecido pelos parentes”. O objeto central da exposição é refletir como, com quem e o que se “negocia” nestas situações de pretensão de arranjos conjugais? Voltamos a atenção para pensarmos a partir destas imagens etnográficas as estratégias empregadas por elas para viverem seus “amores proibidos”, atualizando e reconfigurando os parâmetros locais que orquestram dispositivos entre aliança e sexualidade engendrados nessas tramas matrimoniais.

 

 

NARRATIVAS SOBRE A SEXUALIDADE MBYÁ-GUARANI

 

Luna MENDES DOS SANTOS (UFF)

 

Esta comunicação visa apresentar reflexões iniciais sobre o tema de minha pesquisa para a dissertação de mestrado em Antropologia. Nessa pesquisa tenciono mapear os discursos de mulheres Mbyá­Guarani acerca da sexualidade indígena realizando um trabalho de campo combinado com uma revisão bibliográfica.  Em minha vivência de campo percebi os ambientes institucionais de “diálogo” com o povo Mbyá­Guarani enquanto majoritariamente masculinos. Tive a impressão de que as mulheres eram escanteadas dos processos decisórios. No entanto, entendo que as práticas políticas das mulheres Mbyá não se restringem ao que o saber ocidental circunda enquanto política. Talvez sequer devesse falar em termos de delimitação, mas na relação que coisas, pessoas e entes estabelecem entre si, considerando a sexualidade envolvida nesse contexto múltiplo que compõe um modo de estar no mundo e as práticas políticas cotidianas imbricadas nele. 

A bibliografia sobre o povo Mbyá­Guarani é extensa, porém carregada de conhecimentos moldados por situações de pesquisa específicas, “encontros etnográficos” marcados por intersecções diversas. Em muitos dos trabalhos que compõem essa densa bibliografia os homens são centrais e centralizadores, tanto os interlocutores indígenas, quanto grande parte dos pesquisadores. Esse diálogo entre homens produz um conhecimento específico que não necessariamente traduz o modo de ser de um povo. Nesse sentido penso na genderização da antropologia enquanto outro ponto a ser elaborado em minha pesquisa, considerando o que significa ser mulher em um trabalho de campo. Focando no recorte de gênero, porém sem desconsiderar as intersecções entre gênero, raça, sexualidade, classe e idade que compõe possibilidades de pesquisa. 

POLÍTICA EM DESEQUILÍBRIO PERPÉTUO - TRANSFORMAÇÕES E RELAÇÕES ENTRE OS GÊNEROS A PARTIR DOS KAIOWA E GUARANI NO MATO GROSSO DO SUL (BRASIL).

Diógenes CARIAGA (UFSC)

 

A emergência de movimentos de mulheres indígenas e de pesquisas que reivindicam a categoria gênero para a etnologia, tem demonstrado a importância desta perspectiva para pensar pontos de vista que assegurem novos debates a temas clássicos da Antropologia. Os modos como os coletivos estabelecem marcadores para pensar as diferenças, seja sobre o sexo e/ou gênero são recorrentes nas narrativas míticas, rituais e no cotidiano. Neste texto procuro articular tais questões com informações etnográficas produzidas em diversas experiências de campo junto a famílias kaiowa e guarani que vivem na região sul do MS. O contexto atual de vida é marcado pela intensificação das relações com o modo de ser dos brancos, que produz efeitos nos modos como as pessoas refletem sobre categorias nativas que remetem a “tradição” e a “inovação”. Deste modo, estes conceitos, assim como os modos de ser e conhecer relacionados às mulheres e aos homens, auxiliam a pensar como as e os Kaiowa e Guarani problematizam as transformações que vivenciam na condução política das famílias e da vida coletiva. Gênero para os Kaiowa e Guarani opera uma série de classificações e ontologias nativas para pensar a alteridade e a relação com seus outros, humanos e não humanos. Assim, pretendo realizar aproximações iniciais que tomem estas ideias como nexos para compreensão dos modos de significação do mundo aproximando-me das ideias lévi-straussianas para pensar a alteridade e as transformação através do movimento impulsionado pelo desequilíbrio perpétuo, que caracterizaria o mundo ameríndio por meio da abertura ao outro. Neste sentido, as categorias nativas mais do que pontos fixos são lidas como relações pelas quais se movimentam sentidos, ações e afecções nas conexões entre parentesco, política e conjugalidade kaiowa e guarani.

 

 

ALIMENTAÇÃO E HIERARQUIA DE GÊNERO NO SUDOESTE AMAZÔNICO

Luiz COSTA (UFRJ)

 

Em sua análise das relações de gênero entre os Kulina (Arawá), a antropóloga Claire Lorrain buscou demonstrar a subsunção da agência feminina à agência masculina nas esferas econômicas, políticas e cosmológicas. Apesar de focar a etnografia kulina, seu argumento tem um viés comparativo, propondo, em última instância, que a interdependência entre homens e mulheres na Amazônia é hierárquica. Desta forma, ela critica o hipotético mutualismo elencado por alguns antropólogos influenciados por ideias feministas que se coadunariam com certos anseios ocidentais mais do que com práticas e conceitos indígenas. Nesta apresentação, busco problematizar os termos nos quais Lorrain aborda as relações sociais kulina por meio da etnografia dos Kanamari, povo Katukina da Amazônia ocidental, vizinhos dos Kulina no Juruá. Minha aposta é que ao tomar ‘relações de gêneros’ por uma dimensão básica e constitutiva da etnografia kulina, é Lorrain quem revela seu etnocentrismo. Proponho, ao contrário, que a tal ‘hierarquia de gênero’ pode ser reinterpretada como manifestação de relações assimétricas de prover que atravessam as relações entre humanos e não-humanos, homens e mulheres. Na etnografia Kanamari, tais relações são contidas na ideia de ‘alimentação’. A alimentação, de fato, instaura a agência, mas é basicamente neutra no que diz respeito ao gênero do agente.

Sessão 3:  Tecendo relações (1)

 

 

TRADUZINDO TOLO: “EU CANTO O QUE ELA CANTOU QUE ELE DISSE QUE...” OU “QUANDO CANTAMOS SOMOS TODAS HIPER-MULHERES

 

Bruna FRANCHETTO (Museu Nacional/ UFRJ)

 

No Alto Xingu, sistema regional multilíngue, tolo e jamugikumalu são festas e canto femininos, que formam um complexo ritual e musical em contraste/complementaridade com as flautas kagutu, domínio masculino e interditas às mulheres. Em Jamarikumalu revive-se o mito das Hiper-Mulheres, a metamorfose que faz das mulheres abandonadas pelos esposos seres andróginos e poderosos, que com seus clitóris inchados tocam as flautas kagutu. Em Jamarikumalu xinga-se o pênis (“nosso inimigo”), descontando-se os xingamentos que os homens lançam contra as vaginas quando tocam as flautas kagutu. Os curtos poemas cantados do tolo, onde no lugar do nome do espírito é cantado o nome de um amante humano, falam, sobretudo, de amores, saudades e ciúmes e são versões musicais profanas das peças kagutu. Diferentemente de kagutu e jamugikumalu, ademais, que são festas de itseke (bichos-espíritos), tolo não se articula ao xamanismo, nem tampouco à chefia. Tolo é o único ritual genuinamente karib, especificamente Kalapalo, e não se generalizou (ainda) no contexto alto-xinguano. Digo, ainda, pois se ele não era um egitsü, isto é uma festa intertribal, os Kuikuro o realizaram como tal em 2003 e reivindicam para si tal inovação. Esta apresentação está baseada no trabalho de transcrição e tradução de um corpus de mais de cem cantos tolo, hoje a quase totalidade deste repertório, colhendo a filigrana de sentidos e metáforas, encerrados nos pequenos poemas, pinceladas ou imagens mentais de situações excitantes, relações clandestinas e vitais, sentimentos, que atravessam a vida das mulheres, por vozes femininas e, como seu reflexo sobredeterminado, também por vozes masculinas.

 

 

SOBRE MULHERES BRABAS: RITUAL, GÊNERO E POLÍTICA ENTRE OS ARARA DE RONDÔNIA

Julia OTERO (UnB)

 

Este trabalho versa sobre a relação entre ritual, gênero e constituição do social entre os Arara de Rondônia, falantes de Tupi-Ramarama e habitantes da região do rio Machado. Contam os velhos que o Wayo 'at Kanã é um ritual que realizavam no tempo da maloca nas ocasiões em que desejavam comer jacaré ou dançar. No presente, em um contexto de disputas religiosas e políticas, a festa possibilita a constituição de um espaço-tempo positivo em que moradores de diferentes aldeias podem se reunir e aparecer enquanto um povo.

Mulheres consideradas brabas com seus filhos devem matar os jacarés capturados pelos homens para demonstrarem coragem e descontarem a raiva que sentem dos seus filhos. Apesar de a festa ser convocada a produzir uma forma povo, as relações que o enredo do ritual coloca em tela são aquelas que se referem à escala mais reduzida do parentesco, i.e., uma família conjugal. A raiva desmedida – um sentimento eminentemente masculino e primordialmente vinculado à guerra e canalizado para o inimigo – é o principal afeto problematizado pelo ritual, atribuído nesse espaço-tempo às mulheres.

Busco entender como, no contexto interétnico, o ritual opera simultaneamente em dois níveis distintos do social: constituindo uma forma povo e contribuindo para a permanência da família, pois as pessoas dizem que sua realização faz o casamento durar. O ritual instaura um espaço-tempo em que doméstico e privado, parentesco e política, humanos e animais interpelam-se simultaneamente, fazendo emergir, de um lado, um povo, e de outro a distinção entre homens e mulheres, imprescindível ao processo de produção de pessoas.

 

 

NA PRESENÇA DE YETÁ: MULHERES MANOKI (IRANTXE) NA RELAÇÃO COM OS ESPÍRITOS-VIZINHOS

Ana Cecilia VENCI BUENO (USP/ CEstA)

 

Yetá dá nome a um, mas também é a maneira genérica pela qual se referem ao conjunto de espíritos ancestrais que dá nome ao ritual homônimo. Esses espíritos, aos quais também se referem por ‘vizinhos’, ‘bichinho’ ou ‘jararaca’, são respeitados e temidos e vivem na mata próxima, em uma casa que apenas os homens e rapazes iniciados podem se aproximar, ver e entrar. Jamais falam muito desses espíritos ou sobre o que acontece dentro da casa de Yetá na presença de mulheres e crianças. A visão desses espíritos por elas e pelas crianças não iniciadas é interditada, sob o risco de sofrerem sérias sanções. Embora a visão não lhes seja permitida, as mulheres desempenham papel fundamental na relação entre homens e espíritos pois, além de prepararem quantidades exorbitantes de alimentos que devem ser oferecidos durante o ritual e em dias ordinários, são elas quem, do interior de uma casa coletiva, conversam na língua indígena (isolada) com os espíritos, durante o ritual. A proximidade e a presença de Yetá são percebidas pelas mulheres por meio dos belos sons que emitem enquanto dançam no terreiro ou quando chegam da roça coletiva, que os homens preparam e cultivam juntos aos ‘vizinhos’. As diferentes relações construídas entre mulheres e espíritos, bem como entre e intergêneros, serão abordadas nessa apresentação, tendo como pano de fundo o ritual de Yetá do ponto de vista feminino, privilegiado na etnografia.

 

 

CANTANDO RELAÇÕES: ONÇAS, PLANTAS, MULHERES E ESPÍRITOS NOS RITUAIS PAUMARI

Oiara BONILLA (UFF)

 

Proponho iniciar aqui uma reflexão sobre os cantos xamânicos paumari, a partir dos cantos rituais femininos. Analisarei o papel das mulheres na articulação entre as práticas cotidianas ligadas à predação e à alimentação e os diversos seres que povoam e agem no cosmos através da descrição dos rituais alimentares (ihinika) e do ritual de iniciação feminino (amamajo), procurando refletir sobre a forma como os cantos/diálogos rituais (entre os espíritos e as mulheres) atualizam uma complexa diplomacia perspectiva entre mundos concebidos como humanos (de presas e predadores, de patrões e empregados, de plantas, onças e parasitas). Por fim, me deterei sobre o processo de transmissão destes cantos que, além de mobilizar a mesma arte diplomática, estabelecem relações de parentesco interespecíficas e alianças intergeracionais.

 

 

 

 

Sessão 3:  Tecendo relações (2)

 

 

TRANSFORMAÇÕES DO FEMININO E DO MASCULINO NA CERIMÔNIA CARNAVAL DO POVO CHIQUITANO DO BRASIL

 

Verone Cristina DA SILVA (USP)

 

Este estudo é uma etnografia do povo Chiquitano,que vive no Sudoeste do Estado de Mato Grosso, na fronteira do Brasil com a Bolívia. A análise centra-se nas relações e transformaçõesde identidades que acontecem durante o carnaval, um ritual que performatiza o mito do dilúvio, o fim do mundo e a transformação de homens e mulheres. Durante a cerimônia, os protagonistas realizam uma sequência de ações chamadas matchupekakarch(brincadeira), homens se transvestem de mulheres e criam diálogos na posição feminina e mulheres se transvestem de homens e ocupam a posição masculina. Os homens lançam água, barro e tinta sobre os corpos das mulheres, colocam barro em seus seios, enquanto estas passam as mãos em suas nádegas ou em seus órgãos genitais, descem suas calças e ali também depositam barro, folhas ou outros objetos que dispuserem em mãos. As brincadeiras adjetivam comportamentos que se sobrepõem a anaursch (respeito), conjunto de regras de interdição que instituem o modo chiquitano de operar por meio de comportamentos de evitação e do uso dos termos de parentesco e compadrio. É uma categoria que prescreve “leis do incesto”, mas que durante o carnaval são dissolvidos e as posições de identificação se alteram e se alternam. Estas mudanças são importantes para a restauração da organização social e das relações de alteridade entre os Chiquitano.

 

 

« NO SE NACE MUJER, SE LLEGA A SERLA ».BELLEZA, GENERO Y FEMINISMO ENTRE LOS KAKATAIBO (AMAZONIA PERUANA)

 

Magda Helena DZIUBUNSKA (LESC-EREA/Université Paris X)

 

A través de la etnografía del concurso de belleza organizado en una comunidad nativa kakataibo (Amazonía peruana), el objetivo de esta comunicación es de proponer una reflexión sobre lo que este fenómeno social reciente puede enseñarnos acerca de la manera en que un grupo conceptualiza el "volverse una mujer" y, más en general, las relaciones de género. ¿Hasta qué punto estos concursos revelan cambios en el estatuto de las mujeres dentro de las comunidades nativas?

Aunque todas las chicas púberes pueden ser candidatas al titulo de Reina de Belleza, la participación al concurso exige un entrenamiento que comienza algunos días antes de la fiesta y es impartido por profesores mestizos. Durante esta preparación, las chicas deben aprender a caminar correctamente en el escenario, a adoptar una gestual y una modulación de la voz apropiadas, además de saludar al publico con coquetería y mandarle besos sin dejar de sonreír. La noche del concurso, las chicas desfilan sobre el escenario adoptando diferentes apariencias: "la citadina", "la deportista", "la estudiante", "la chica nativa" y "la mujer en traje de gala". Una verdadera maquinaria de alterización se pone en obra frente al público, que podría estar ligada al concepto de transformabilidad del cuerpo, bien conocido en la Amazonia. Adoptando un enfoque pragmático, este presentación cuestionara las diferentes representaciones del sí mismo y del otro puestas en escena durante el concurso, poniendo de relieve su carácter performativo.         

Inspirada en parte por la teoría de Butler (1990, 2004) sobre la performatividad del género, el objetivo de este estudio es reflexionar no solo sobre los actos que las mujeres indígenas se ven obligadas a realizar hoy en razón de su genero, mas ante todo sobre las prácticas que las hacen mujeres.

 

 

CORPOS SONHADORES: O MARINÁ E AS MULHERES JARAWARA

 

Fabiana MAIZZA (USP/CEstA)

 

A partir de minha etnografia com os Jarawara, povo falante de uma língua Arawá e habitantes do médio curso do rio Purus, a apresentação visa refletir sobre a festa de saída das meninas em reclusão, o mariná, e seus efeitos na composição de uma agência feminina vulnerável. A ideia aqui desenvolvida é que a “sonolência” (nokobisa), o “cansaço” (mama) e a “beleza” (amosa) são formas de ações rituais que visam extrair dos corpos femininos suas capacidades de “serem carregáveis” (weye). Capacidades estas vinculadas também à algumas plantas cultivadas, às crianças, às “presas” (bani), aos mortos e, sobretudo, aos xamãs que, levados nas costas de seus filhos-planta, experimentam relações com diversos tipos de seres no neme (o "céu") mas também em seus sonhos. Sugiro que o mariná acione capacidades do corpo feminino, ensinando-o, entre outras coisas, a sonhar e a ser levado. Procurarei assim pensar como uma certa noção de gênero jarawara, embaralha e proporciona uma crítica etnográfica ao nosso contraste poder masculino x submissão feminina.