RESUMEN GRUPO DE TRBAJO 10

GT 10. TEORIAS ETNOGRÁFICAS DA (CONTRA)MESTIÇAGEM

 

Coordinadores:

Dr. Marcio Goldman. Professor Associado, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS), Departamento de Antropologia, Museu Nacional, UFRJ, Brasil; marcio.goldman@gmail.com

Dra. Julia Frajtag Sauma. Pós-doutoranda, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social (PPGAS), Departamento de Antropologia, FFLCH, Universidade de São Paulo, Brasil; Bolsista PNPD-CAPES. juliasauma@gmail.com

Mg. Maria Belén Hirose. Doctoranda ; Instituto de Altos Estudos Sociales, Universidad Nacional de San Martín ; Ides Argentina. belenhirose@gmail.com

 

 

I. “Pureza, mistura, indiscernibilidade”

 

 

REFLEXÕES SOBRE O (CONTRA)SINCRETISMO MÁGICO

 

Lucas Marques. Mestrando em Antropologia Social pelo Programa de PósGraduação em Antropologia Social (PPGAS), Museu Nacional, UFRJ, Brasil.

 

Este trabalho busca refletir sobre o conceito de “sincretismo mágico”, proposto por Roger Bastide, que indica um modo de agenciamento que não opera nem por assimilação, nem por justaposição ou correspondência; mas que, antes, age por acumulação e intensificação de forças. Ao reverberar este conceito etnograficamente, proponho pensar num modo de agenciamento entre distintos territórios existenciais (afro-brasileiros, católicos, pentecostais e indígenas) que parta do ponto de vista das religiões de matriz africana no Brasil e, especialmente, do ponto de vista de José Adário dos Santos, mais conhecido como Zé Diabo, sacerdote e ferreiro da Bahia.

Para isso, é necessário mobilizar os conceitos nativos de força e de parte; pois, se para Zé Diabo todos esses domínios cosmológicos são repletos de forças – ou seja, padres, pastores e indígenas também podem ser grandes feiticeiros –, cada força mobilizada possui a sua parte específica, que deve ser trabalhada através de distintas práticas rituais de modo a incrementar a força daquele que a agencia. Agenciar partes e suas forças faz parte de um saber-fazer específico, que visa, a partir das práticas rituais, compor multiplicidades, conectando heterogêneos enquanto heterogêneos. Assim, ao invés de uma “mistura” entre distintos elementos,  o que esse modo de agenciamento propõe é uma cosmopolítica afro-religiosa específica da relação com outras práticas religiosas.

Palavras-Chave: sincretismo mágico; Roger Bastide; cosmopolítica; teoria etnográfica; feitiçaria.

 

 

 

O SINCRETISMO COMO RELAÇÃO

Clara Flaksman

 

A fala que pretendo apresentar baseia-se em uma reflexão acerca de observações sobre o sincretismo que me foram feitas durante a minha pesquisa de campo em um terreiro de candomblé em Salvador, na Bahia.

No que tange ao universo das religiões de matriz africana no Brasil, o termo sincretismo normalmente aparece como a expressão de uma tática de conservação da religião dos escravos africanos para cá trazidos à força. Porém, às explicações recorrentes sobre a sobrevivência da religião africana permitida pelo ocultamento dos orixás pelos santos católicos, somaram-se visões que tratavam do sincretismo como algo que revela uma relação entre estas entidades. Ou, nas palavras de uma filha de santo, o sincretismo revela um “enredo” entre o santo e o orixá.

“Enredo” é um termo com uma ampla gama de significados, extensamente utilizado no candomblé de Salvador. Atenho-me aos três mais frequentes: enredo como relação, como narrativa e como emaranhamento. Utilizando esse conceito, pretendo pensar sobre o sincretismo de maneira que não coloquemos um de seus elementos à frente do outro, e sim ambos em relação – atentando para a capacidade de apropriação do candomblé, de dissolver em sua cosmologia elementos a ela estranhos.

Da mesma maneira que pensar em contra mestiçagem coloca culturas muitas vezes relegadas a uma posição inferior (ou oculta) como protagonistas de suas próprias teorias e reflexões, proponho pensarmos, portanto, em um contra-sincretismo, e com ele destacar uma teoria que se pretende mais do encontro que da síntese.

Palavras chave: sincretismo, candomblé, enredo, religiões afro-americanas, Bahia.

 

 

O COINCIDIR DOS SANTOS. IMAGENS E REVERSÕES NO CANDOMBLÉ NAGÔ

Olavo de Souza Pinto Filho. Doutorando PPGAS-USP; olavosouza@gmail.com

 

            A discussão sobre sincretismo aparece como um tema incontornável nos diversos trabalhos sobre o candomblé em Recife. Para além dos seus usos teóricos, o tema também é mobilizado pelos praticantes do candomblé. Contudo, diferentemente do que preconizam os pesquisadores, meus anfitriões do Ilê Iyemanja Ogunte do Recife são categóricos em afirmar a “não mistura” como condição da existência de seu sincretismo.

            O objetivo desse trabalho é perseguir etnograficamente os desdobramentos dessa afirmação, bem como seus efeitos sobre as nossas teorias sobre o sincretismo. Nesse sentido, focalizo certas composições rituais presentes no candomblé nagô que engajam elementos tidos como católicos (missas, imagens de santos, entre outras) e aqueles de outros domínios tidos do candomblé (jogo de búzios, ebós, culto aos ancestrais). Ao invés de fixar tais elementos como categorias fixas e dadas a priori, atento às relações contextuais em que a diferença entre eles é precipitada, e qual a importância dada pelos praticantes do candomblé em destacá-la. Tais composições entre domínios entendidos como separados (não fechados), não ocorrem em relação apenas ao catolicismo, mas são presentes entre os diferentes contextos e espaços do candomblé nagô; eles coexistem necessariamente uns a partir dos outros, sem que suas diferenças sejam subsumidas.

Esse movimento coloca um duplo desafio conceitual: (1) pensar em um sincretismo sem mistura e, (2) imaginar analogias entre santos católicos e orixás, catolicismo e candomblé, que prescindam da noção de equivalência.

Palavras chave: Sincretismo. Reversões. Nagô. Candomblé. Recife.

 

 

 “O SEU SETE ENCRUZILHADAS VEM E TRAZ TODA A TRIBO DELE”: COSMOPOLÍTICA E CRUZAMENTOS AFROINDÍGENAS NA LINHA CRUZADA

João Daniel Dorneles Ramos – Professor do Instituto de Filosofia, Sociologia e Política da Universidade Federal de Pelotas; Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

 

Nesta comunicação proponho discutir o processo de cruzamento, que se dá na Religião de Linha Cruzada, entre diferentes ontologias (africana, ameríndia, cristã, kardecista, do Oriente, Povo Cigano, Linha de Exus...). Compreendo que essas diferenças ou “lados” são parte de uma relação cosmopolítica e, portanto, de uma “diplomacia cósmica” (ANJOS & ORO, 2009). Indico que a conectividade e o jogo das diferenças que compõem as religiosidades de matriz africana nos mostram elementos-chave para percebermos outros modos de existência que vão além das formas essencialistas de identidade. É pela lógica rizomática que se torna possível pensarmos a religião como “percurso nômade”. Os elementos de interpenetração cosmos e sociopolítica, humano e extrahumano são tomados pelas/os umbandistas como possibilidades de conectividade entre cosmología ameríndia e afro-brasileira. Assim, o intermediário para o Orixá que trabalha na pedreira será algum(a) caboclo/a da linha de Xangô. O Sete Encruzilhadas, que abriu a Umbanda para que os espíritos de negros escravizados, de indígenas e de outros povos pudessem chegar, é intensivamente ligado a práticas rituais tanto do Batuque como da Quimbanda. O caboclo Sete Encruzilhadas se cruza e pode vir como Exu das Sete Encruzilhadas. É da noção de encruzilhada que podemos tirar respostas potencialmente fortes para os conceitos de sincretismo e mestiçagem.

Palavras-Chave: Cosmopolítica. Linha Cruzada. Encruzilhada. Diferença. Sincretismo.

 

 

LA ANTROPOLOGÍA Y EL MESTIZAJE COMO TÁCTICAS DE EXTERMINIO Y DOMINACIÓN. EL INDIGENISMO MEXICANO EN LOS AÑOS POSREVOLUCIONARIOS (1920-1940)

 

Rafael Antonio Rodrigues. Universidade de

Brasília – UnB; deviintoster@gmail.com

 

En el México posrevolucionario (1920-1940), el saber antropológico se convirtió en una

herramienta conceptual e ideológica fundamental en la construcción de un nuevo horizonte discursivo alrededor de la identidad nacional. A partir de la apropiación del elemento indígena, ganaba fuerza un nuevo sentido de México y mexicanidad. El indio era incorporado a la nación a partir de su metamorfosis en mestizo, categoría que emergía como el nuevo arquetipo nacional, supuestamente capaz de conciliar la pugna histórica evidenciada por la Conquista y forjar un sentido de patria unívoco y homogéneo.

Sin embargo, el discurso en torno al ser mestizo era una forma de blanquear al indígena,

negándole los trazos que le caracterizaban como tal para que él se transformara en un “igual”, es decir, un hombre blanco. Al indígena no le estaba permitido revelarse a partir de sus propios caracteres culturales e identitarios, su incorporación era una forma de legitimar un proyecto nacional, que se le imponía desde el Estado, que poseía como marco civilizatorio el mundo Occidental. Se creía que el hombre blanco, en el cruce racial, habría de predominar sobre el indígena en función de su “superioridad” de raza y civilización.

En ese sentido, el indigenismo moderno no se diferenciaba de los antiguos postulados

teóricos decimonónicos en torno al indígena. Aunque se le comprendiera como una realidad viva y pulsante al tiempo de la revolución, el lugar que le estaba reservado al interior del nuevo orden mestizo revolucionario era el de su extinción.

Palabras Clave: antropología, indigenismo, mestizaje.

 

 

VARIAÇÕES DE TEORIAS DA DIFERENÇA NO CONTEXTO CABO-VERDIANO

Natalia Velloso Santos – PPGAS-UFRJ

nataliavellososantos@gmail.com

 

Entre 1951-52, Gilberto Freyre visita diversas colônias portuguesas na África a convite da ditadura salarazista. O principal propósito da viagem era a propagação dos referenciais da teoria luso-tropicalista como justificativa para a manutenção dos regimes coloniais de Portugal em pleno século XX.  A visita do sociólogo era aguardada com particular interesse por representantes da elite intelectual em Cabo Verde, onde as teorias freyrianas da mestiçagem foram utilizadas como referência daquilo que seria entendido como a especificidade da sociedade cabo-verdiana. Tratada então como um caso típico de unidade cultural e racial forjada a partir de um processo de fusão entre europeus e africanos, nos moldes, e inclusive antecipando, o caso brasileiro. Essa interpretação fundamentou um processo de criação de uma identidade cabo-verdiana, por tal elite, marcado pela ambiguidade da reivindicação de uma autonomia local, em detrimento da dominação colonial, ao mesmo tempo associada ao enfraquecimento da identificação com a África. O que explica o desapontamento desta mesma elite com a constatação de Gilberto Freyre ao diagnosticar a sociedade cabo-verdiana como essencialmente negra. Este trabalho pretende analisar as variações entre os distintos regimes de diferença presentes tanto nas análises de Gilberto Freyre sobre o arquipélago, quanto em suas versões elaboradas pela intelectualidade cabo-verdiana (anterior e posteriormente à visita de Freyre), para então de contrastá-la com problemas e teorias da diferença colocados a partir de outros contextos locais que, ainda que não tratem diretamente do tema da miscigenação, ofereçam a este um contraponto.

Palavras-chave: Gilberto Freyre, Mestiçagem, Cabo Verde.

 

 

 

 

 

II. “Devir outro, ser gente”

 

ESTRANHOS COMPADRES: QUILOMBOLAS DE FAMÍLIA MAGALHÃES E OS ENCONTROS COM SEUS OUTROS

 

Daniela Carolina Perutti. Doutoranda em Antropologia Social – Universidade de São Paulo; daniperutti@yahoo.com.br

 

O paper a ser apresentado tem como intuito desenvolver uma questão surgida em minha tese de doutorado acerca das relações dos membros do quilombo Família Magalhães (GO) com “índios” com quem convivem nas beiras do rio Paranã. Estes são definidos como seres silenciosos, que “andam demais”, além de bravos e com saberes mágicos, tendo o poder de ficar invisíveis. A relação com eles ocorre em grande medida por meio dos sinais de sua existência que deixam para trás, o rastro, ou ainda o assovio.

Estes seres, como as crianças, “fazem pinturas”. Não costumam matar ou bater em gente, mas bagunçam casas e tiram objetos do lugar. Caso alguém os encontre pela frente, deve cumprimentá-los e chamá-los de “compadres”, de modo a apaziguar sua braveza. Dizer a palavra “índio” ou “tapuio” irá desagradá-los, e ninguém com quem conversei a respeito quis “pagar para ver um compadre bravo”. Eles também teriam uma linguagem própria, e só se fariam entender pelos outros quando quisessem.

O fato de terem poderes mágicos e serem “agitados”, propensos a relações agonísticas, faz com que seja necessário se cercar de cuidados na tessitura de tais relações. Assim, chamá-los de “compadres” aparece como forma de estabilizar relações pela fala de um nome que denota vínculo (“compadre”) no lugar de outra que denota perigo (“índio”).

Se por um lado “índios” são percebidos como alteridade radical com a qual é necessário ter precaução, por outro, reconhecem que possuem algo de “sangue de índio”, lembrando que neles próprios está contido esse outro que requer cuidados.

 

 

O RIO COMO EIXO DE TRANSFORMAÇÃO: ENTRE A CIDADE O LAGO GRANDE

Fernando Augusto Fileno. Agência de fomento: Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Programa de Pós graduação em Antropologia Social da Universdade de São Paulo (PPGAS-USP). Mestrando; fernando_fileno@hotmail.com

 

Encontramo-nos aqui em um mundo eminentemente transformacional, baseado em processos desencadeados tanto entre relações como entre deslocamentos, do qual focaremos a indeterminação produzida nas idas e vindas sobre o rio. Os Mura são os atores desse sistema, grupo indígena de língua mura, hoje falantes do português, são habitantes do complexo hídrico dos rios Amazonas, Madeira e Purus, bem como residentes em diversos municípios da região. O que abordaremos como teoria nativa da (contra)mestiçagem traduz-se no movimento pendular entre a cidade e o Lago Grande (limite extremo da T.I. Cunhã Sapucaia), as aldeias localizadas no rio Igapó-Açu guardam  distâncias diametralmente equivalentes dessas duas forças de gravitação existentes: o ambiente urbano e a floresta respectivamente. Os movimentos de curso a jusante são tão desejados e plenos quanto os a montante. Entretanto, não tratamos aqui apenas de desejos, mas também de posicionamentos ontológicos, esses espaços são origens de morfologias corporais distintas, ensejam como o fazem certas substâncias, determinadas afecções e capacidades, os modos de viver e experienciar (comer, andar, dormir, reunir) são aqui transubstanciáveis ou, poderíamos dizer translocalizáveis, pois o lugar faz toda diferença. Nesse contexto, a aldeia mura, como terceiro termo, está simultaneamente nos dois lugares ao mesmo tempo, um quadro que ressoa a teoria yanomami sobre o “virar branco” descrita por José Kelly Luciani e que aqui será trazida como referência comparativa para falar do rio como espinha dorsal de um sistema de transformação ou de mistura com o Outro, seja ele um índio bravo ou um branco.

Palavras-chave: Mura, Amazônia, transformação, ontologia, corporalidade.

 

 

TEMPO E PESSOA NA VILA DE CIMBRES

 

Clarissa Martins Lima. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos; clarissa.martins.lima@gmail.com

 

Aqui tem gente de toda qualidade, dizem os moradores da Vila de Cimbres, aldeia Xukuru do Ororubá, localizada entre o agreste e o sertão pernambucano: católicos, evangélicos, catimbozeiros, médiuns, índios; caboclos, entidades, encantos, espíritos, finados, defuntos, santos. Mas nem todas essas qualidades existem do mesmo modo ou são igualmente desejáveis: tão boas que nem prestam ou ruins, sebosas,algumas estão vivas, outras mortas, umas fazem parte do presente, outras de um tempo que já passou, mas que, nem por isso, deixam de existir. Nesse trabalho, exploro etnograficamente estes muitos modos que a pessoa pode assumir na Vila de Cimbres através das noções de qualidade e tempo. Aqui, tempo e qualidades são noções que funcionam como figura e fundo de um só movimento, e que, passado ou presente, não deixam de se perpetuar, alargando as possibilidades de ser e estar no mundo. Assim, busco mostrar como a pessoa aparece ora como mistura, ora como purificações instáveis destas qualidades-tempos que em alguns momentos se sobrepõem, em outros apenas se tocam e, em outros ainda, se repelem. Ao mesmo tempo, busco me valer dos usos que os Xukuru fazem de termos comumente apartados em especialidades da antropologia, e explorar os efeitos desse encontro para o fazer antropológico.

Palavras-chave: Xukuru do Ororubá; pessoa; tempo; antropologia

 

 

A MESTIÇAGEM COMO BAIXA ANTROPOFAGIA: ALGUNAS REFLEXÕES A PARTIR DOS TIKMŨ’ŨN (MAXAKALI)

 

Roberto Romero. PPGAS. Museu Nacional, UFRJ; roberomerojr@gmail.com

 

Os brancos, dizem os TikmÅ©’Å©n, surgiram dos Ä©nmõxa, seres canibais e ferocísimos que vagam solitários pelas matas e que são capazes de matar aldeias inteiras num lance de poucos minutos. Mais do que monstros estrangeiros a ameaçar os humanos, entretanto, os Ä©nmõxa são um perigoso destino, sobretudo para aqueles que descumprem o resguardo. É possível, em suma, tornar-°©â€se inmõxa. Neste trabalho, pretendo aproximar os perigos transformacionais implicados neste “tornar-°©â€se Ä©nmoxa” àqueles suscitados pela experiencia igualmente perigosa e indesejável do “tornar-°©â€se branco”. A partir de algunas reflexões em torno de teorías tikmÅ©’Å©n da transformação, pretendo ainda desestabilizar os principios de uma certa “metafísica canibal”, implícita

nos esquemas neoevolucionistas das “teorías da mestiçagem”, qual seja, a ideia da captura inexorável–por “assimilação”, “integração”,“fusão”ou“síntese”-°©â€ das potencias do múltiplo pelo Um, dos Outros pelo Eu.

palavras-°©â€chave: contramestiçagem; cosmologías do contato; antropofagia.

 

A CORRENTEZA DAS ÁGUAS E O QUE ELAS CARREGAM: VIVOS, MORTOS E O ESPAÇO NA ILHA DO MASSANGANO, RIO SÃO FRANCISCO

Márcia Maria Nóbrega de Oliveira. Doutoranda, Unicamp; marciamnobrega@gmail.com

Esta apresentação parte de uma pesquisa de doutorado em andamento em que busco compreender como se dão as relações de uma comunidade com seus mortos, tomando-as a partir da mediação com o ambiente em que habitam. A comunidade em questão é a Ilha do Massangano, uma ilha situada no semi-árido nordestino, ali no trecho submédio do Rio São Francisco, entre as cidades de Petrolina, em Pernambuco, e de Juazeiro, na Bahia. Dentre camponeses, feirantes, pescadores e, em outros tempos, marinheiros, convivem na Ilha do Massangano no decorrer de pelo menos quatro gerações cerca de 180 famílias, ou 700 pessoas, quase todas negras. Ilhéus, mas não ilhados, vivem a cerca de vinte quilômetros de onde foi o porto final da travessia Pirapora-Juazeiro, rota fluvial que conectava o nordeste ao sudeste brasileiro e que movimentou intensa troca de mercadorias (dentre sal, rapadura e cachaças), mas não apenas: ali circulava pessoas, seus sambas, toadas e benditos, mas também seus mortos e caboclos. De fato, a Ilha do Massangano cuja população predominantemente católica já comportou, nos tempos de intensa navegação, mais de quatro “casas de caboclo” ou “mesa branca”. Atualmente existem apenas dois centros que funcionam intermitentemente. Diante desse quadro, me interessa pensar como, a partir do marco da construção da Barragem Hidrelétrica de Sobradinho à montante da Ilha do Massangano, a alteração dos fluxos das águas afetou o regime dos encontros propiciados pelo rio: seja entre mortos e vivos, ou entre os vivos e eles mesmos.

 

 

CABOCLOS E PRETOS VELHOS: POSSESSÃO E VOO XAMÂNICO NA COMUNIDADE SÃO JOSÉ

 

Marina Guimarães Vieira. Universidade Federal da Bahia

marinaguimaraesvieira@gmail.com

 

Partindo de uma releitura do material etnográfico apresentado em minha tese de doutorado sobre os trabalhos espirituais realizados pelos moradores da comunidade São José, localizada na Reserva Extrativista Arapixi, no Estado do Amazonas, o trabalho apresentará uma discussão a respeito do conceito de caboclo. Seu uso será perseguido não na acepção acadêmica tradicional do termo, que aponta para a questão da miscigenação, mas nos contextos nos quais é ativado pelos nativos, como categoria introduzida de “fora” para “dentro”. O coletivo aqui acompanhado, comumente definido pelos pesquisadores como uma população cabocla, utiliza o termo como modo de identificação da alteridade (indígenas da região e espíritos), mas não como auto-identificação. Definem-se, antes de mais nada, como cristãos, termo equivalente ao estatuto de humano em várias regiões da Amazônia. No intuito de compreender melhor a ontologia do coletivo, serão analisadas as relações que estabelecem com os não humanos chamados caboclos e pretos velhos, que se dão através das práticas conceitualizadas pelos nativos como atuação. Essas práticas, que englobam os processos comumente caracterizados em separado, pelas subdisciplinas antropológicas dos estudos afro-americanos e da etnologia indígena, como possessão e voo xamânico, serão analisadas em profundidade, tal como vividas e pensadas pelos moradores da comunidade São José.

Palavras chaves: caboclos, pretos velhos, possessão, xamanismo 

 

 

III. “Desterritorizações e reterritorizações”

 

 

NO SOMOS CHOLAS Y LLEVAMOS POLLERAS. Debates sobre las construcciones de identidad Tocañera, La Paz-Bolivia.

Luis Reyes Escate. Programa de Posgrado en Antropología Social - Maestría Académica. Universidad Federal de Río Grande do Sul. Agencia de fomento de investigación: CAPES. Orientador: Prof. Dr. Carlos Steil; luisreyes_2703@hotmail.com

Venía con su pausado caminar, a lo lejos. “Suma aruma, saludó desde la oscuridad. De ojotas, pollera esmeralda, camiseta negra, sombrero hongo de color negro, cabello amarrado en dos pequeñas trenzas. Vi sus grandes ojos saltones y su inmensa sonrisa blanca, ligeramente manchada por restos de la coca que piqchaba, aparecer paulatinamente en la habitación. Era la tía Marta, mujer negra habitante de la comunidad afro-boliviana de Tocaña. Nos saludamos y, después de invitarme a piqchar, comenzamos a conversar.

 

-En la mañana ha llegado un gringo loco buscando ‘cholitas negras’, me ha dicho- afirmó con molestia.

-¿Y usted que respondió, tía? Sobre las cholitas.

-¿Cholitas? ¡Ninguna cholita, carajo! Aquí somos negras nomás.

-Tía, pero… ¿no cree que algunas personas de aquí son una mezcla entre negros y aimaras? ¿afro-aimaras?

-¿Afro-aimara? Nunca he escuchado eso. Mezcla hay, pero eso que dices… ¡no!

 

El objetivo principal de este trabajo es, partiendo de un diálogo simétrico entre la discursividad académica y Tocañera, plantear algunas hipótesis sobre las gradientes ontológicas de racialidad y mestizaje.  Asimismo, se busca reflexionar sobre los procesos de construcción de identidades Tocañeras, los cuales rebaten la concepción “occidental” de procesos identitarios únicos de fusión. 

Palabras claves: (contra)mestizaje, Tocaña, afro-bolivianidad, aimara.

 

 

MODERNIDADES PERIFÉRICAS Y TRANSICIONES AMERINDIAS: UNA MIRADA ETNOGRAFÍA DEL PARENTESCO AL ETHOS ULWA. CARIBE NICARAGÜENSE

Dra. Denia Román Solano. Docente Escuela de Antropología e Investigadora Instituto de Investigaciones Sociales. Universidad de Costa Rica; dennia.roman@ucr.ac.cr y denia_rs@yahoo.com

 

El Caribe Nicaragüense se caracteriza por la imposibilidad de definiciones étnicas y raciales, su literatura etnológica e histórica da cuenta de ello. El escaso control colonial, así como el dominio indígena del territorio hasta prácticamente mediados del siglo XIX, generó una particular manera de delimitar grupos, lenguas e identificaciones étnicas. Amerindios, africanos y las configuraciones colectivas que estos gestaron fueron, y son, categorías inéditas en el contexto Centroamericano, que desafían los parámetros académicos.

Los Ulwa, un grupo indígena y minoritario de esta región, son un claro ejemplo de esta condición, y son así mismo, el foco de este trabajo. Se concentran en la cuenca baja del rio Grande de Matagalpa, específicamente en la comunidad de Karawala, que fue constituida hace más de cien años por grupos familiares de origen diverso: Mayangnas (especialmente Ulwas, pero también Panamahkas Tawahkas), Miskitos, y afro-descendientes. El estudio detenido en las explicaciones locales sobre lo que comúnmente llamamos como mestizaje, y en los recursos del parentesco y el ethos ulwa evidencian la originalidad con que este colectivo piensa las diferencias y sus transformaciones. Así, este trabajo describe histórica y etnográficamente estas explicaciones, que apuntan a la constitución de una geométrica sociocultural y regional, evidenciada y activada a la luz de la modernidad, y más recientemente, de las políticas multiculturales que la Autonomía Regional sigue.

Palabras claves: Ulwa, Caribe Nicaragüense, parentesco, ethos y autonomía política.

 

 

NOTAS SOBRE A ALIANÇA ENTRE NEGROS E ÍNDIOS NO MARACATU LEÃO DE OURO DE CONDADO (PE)

Noshua Amoras de Morais e Silva. Graduada em Ciências Sociais, com habilitação em Antropologia, pela Universidade de Brasília (UnB); noshua.amoras@gmail.com

 

A partir de minha pesquisa de campo junto ao Maracatu Leão de Ouro de Condado (PE), procuro, neste trabalho, acompanhar a narrativa dos folgazões sobre a relação entre negros e índios nesta brincadeira.

A discussão sobre a presença de elementos “indígenas” e “afro-brasileiros” no maracatu aparece com alguma frequência, ainda que pouco explorada, na breve literatura sobre o tema. Durante minha pesquisa, Fábio e Derivan, dois jovens folgazões com os quais convivi, chamaram minha atenção sobre o começo do maracatu, dizendo-me como a brincadeira surgiu pela aliança entre índios e negros numa guerra contra o senhor de engenho. Não obstante, eles apontaram também para uma espécie de relação entre as mudanças provocadas pelas violentas intervenções do senhor de engenho contra o maracatu antigamente, e aquelas reproduzidas e praticadas pelo estado contra a brincadeira nos dias atuais. Eles afirmam, então, que essa guerra não terminou.

Assim, o objetivo desse trabalho é pensar a relação entre negros e índios no maracatu, enfocando também a articulação temporal trazida por essa atualização da guerra de um passado sempre presente, e os efeitos da intervenção estatal mapeados pelos folgazões (que convergem em uma tentativa de pacificação do maracatu).

Palavras-chave: maracatu; afroindígena; estado.

 

 

RELAÇÕES AFROINDÍGENAS NO JARÊ DA CHAPADA DIAMANTINA, BAHIA

Gabriel Banaggia. Pós-doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – Museu Nacional (UFRJ); (gbanaggia@gmail.com)

 

O jarê é uma religião de matriz africana existente somente na Chapada Diamantina, área do interior da Bahia, estado localizado no nordeste do Brasil. No interior do campo de estudos afro-brasileiros, o jarê exemplifica um desenvolvimento paralelo ao dos candomblés litorâneos dos quais é aparentado, tendo sido elaborado por um conjunto de senhoras africanas, ou suas descendentes diretas, chamadas nagôs, que chegaram deliberadamente ou foram levadas escravizadas para a região. Aí habitando, esse conjunto estabeleceu uma prática primeva do jarê com base em um compromisso com potências ligadas a indígenas que, apesar de não mais habitarem a região, continuavam sendo os donos legítimos daquela terra, ao contrário dos brancos que passaram a explorá-la na cata de pedras preciosas.

Diferentemente do que aconteceu com outras tradições similares, entretanto, no jarê as forças indígenas se insinuaram de forma mais contundente, fazendo com que ele se transformasse levando todas as entidades cultuadas nas cerimônias a serem consideradas caboclas. Se os caboclos do jarê contemporâneo travam uma luta que é antes de tudo espiritual, seus efeitos em última instância envolvem uma retomada de territórios tanto existenciais como físicos, já que fez parte do compromisso estabelecido no passado o retorno das populações indígenas às terras que por direito são suas. Essa comunicação apresentará as formas pelas quais esse desiderato tanto foi ensaiado morfologicamente numa comunidade local de remanescentes de quilombolas de origem afroindígena quanto permanece vivo nas manifestações rituais que se desenrolam em todo jarê.

Palavras-chave: Jarê; religiões afro-brasileiras; sincretismo; cosmopolítica; afro-indígena.

 

 

O PARLAMENTO DOS DEUSES E AS DIVINDADES DO CONTRABANDO: “PERDA DA CULTURA” E TÉCNICAS DE CAPTURA

 

Mauricio Machado Siqueira Filho. Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional (UFRJ) – Mestrando (2° ano)

O trabalho consiste numa apropriação de algumas sugestões elaboradas por Tobie Nathan, a partir de sua experiência terapêutica junto ao Centre George Devereux (FR), para uma redefinição pragmática ou experimental da noção de pertencimento cultural. Interessam aqui suas contribuições para uma desestabilização de certo modelo usual de conexão- indissociável daquilo que descrevemos, tradicionalmente, como multiculturalismo- entre os fluxos de dispersão espacial dos povos e os movimentos de diferenciação sociocósmica aos quais estão relacionados. Vinculado, ainda que sob versões aparentemente muito distintas, à uma retórica da assimilação ou mistura, esse modelo parece ter conduzido, inevitavelmente, a descrições muito enfraquecidas das relações de força imanentes ao desafio de “acolher o estrangeiro”. O trabalho se concentra, portanto, na apresentação de um outro repertório conceitual no qual os dilemas da interculturalidade são desestabilizados em favor de um pensamento da Terra como arena de confronto entre divindades. É esse o sentido de instaurar um parlamento dos deuses: produzir um dispositivo capaz de explorar as diferentes modalidades de fuga e captura implicados no comércio com (e entre) os deuses estrangeiros.

Palavras-Chave: Tobie Nathan, Cosmopolítica, Etnopsiquiatria

 

 

 

 

 

 

 

SOBRE O TRAÇADO

Clarisse Q Kubrusly. (PPGAS/MN/UFRJ); clarisseqk@gmail.com

 

A partir do trabalho de campo com os Xangôs (religião afro) e Juremas (afroindígena) da nação Xambá, localizados no Quilombo Urbano do Portão do Gelo, Olinda-PE; aponto os caminhos para uma discussão sobre o traçado na arte da feitura da vida junto aos deuses africanos (orixás) e entidades da terra (caboclos e mestres). O traçado diz respeito a arte de resistência, ao movimento criativo que articula essas duas formas de práticas em novos arranjos, sem que no entanto, uma se sobreponha a outra. A vida dos Xambás é traçada entre o lado da Jurema e o lado do Xangô, que atravessa os corpos de modo indissociável da noção de pessoa. As composições realizadas variam a cada caso na medida das exigências cosmopolíticas realizadas pelos seres espirituais em questão com a colaboração dos sacerdotes humanos. Apresento para a discussão dois casos contrastantes de Madrinhas Juremeiras: Marinalva de Oxum com Mestre Zé Pretinho e Cristina de Oyá com Zé da Pinga. O ato de traçar, em ambos os casos, cria novas formas de fazer o Xangô e a Jurema coexistirem em cruzamentos únicos que excluem integramente a ideia de mistura. Por um lado estão totalmente separados e por outro, funcionam como opostos complementares. Assim, gostaria de testar Junto a esse GT se é possível fazer do traçado um conceito para uma teoria etnográfica de alcance mais amplo do que o contexto nativo do qual ele provém.

Palavras chaves: Traçado, Xangô, Jurema, Cosmopolítica.  

 

IV. “Cosmopolíticas e heterogêneses”

 

 

THIS IS NOT PERFORMANCE. THIS IS CULTURE ». PERFORMANCE ORNAMENTAL E AUTORIDADE ENTRE OS BLACK INDIANS DA NOVA ORLEANS

Laure Garrabé. Dra, Prof. Visitante Antropologia, UFSM DAM/UFPE. Colaboradora Maison des Sciences de l’Homme Paris Nord (USR 3258, Axe 1 Thème 5); laure.garrabe@gmail.com

 

This is not performance, this is culture! Eis a resposta que recolhi de um Black Indian ao perguntar se procedia qualquer ritual antes sua performance. Organizados em tribos, os Mardi Gras Indians, brincadeira carnavalesca da Nova Orleans, saem a rua ao ritmo do pandeiro, cantando o próprio prestigio num tom desafiante, “mascarados” de suas indumentárias. Minuciosamente costuradas a mão, inspiradas dos trajes do Índios dos Planaltos, eram tradicionalmente queimadas após um só uso. Se a historiografia aponta como sua origem a criação do Creole Wild West, após a temporada do Buffalo Bill Show em 1884, eles a remetem à homenagem espontânea dos negros quilombolas aos indígenas locais, entre os quais se refugiaram durante a escravatura. A luz da etnografia de suas modalidades de expressão – o desfile e o desafio entre os dois Big Chieves centrado na inclinação de um diante a autoridade e a beleza do outro – a “emergência” vira um instrumento de visibilidade da história escondida dos afro-indígenas e seus descendentes subalternizados.

Com dados apontando uma dialética constante da economia e do dispêndio, analisarei aqui as diversas dimensões dessa visibilização a partir de uma crítica das leituras performance- e cultural-based das expressões simbólicas. Entre “performance ornamental” e a tensão dos discursos authoritative/authorial sempre em jogo, refletirei sobre os movimentos de (des)identificação dos Black Indians com sua sociedade. Poderia revelar o paradoxo inicial segundo o qual, contra todas as aparências, eles não participam aos dispositivos do espetáculo da sociedade política global para reconducir sua memória, mas a despendem.

Palavras-chaves: Mardi Gras Indians; afro-indígenas; performance; reverse, anthropology; decolonialidades.

 

 

AS PROPAGAÇÕES DA GUERRA: CONTRIBUIÇÕES A UMA ANTROPOLOGIA AFROINDÍGENA

 

Luiza Dias Flores. Doutorado - segundo ano. Museu Nacional/PPGAS/UFRJ; ldiasf@gmail.com

 

As tribos carnavalescas Os Comanches e Os Guaianazes são grupos que disputam no carnaval da cidade de Porto Alegre. São índios carnavalescos cuja apresentação na avenida é denominada de guerra. Cada tribo dedica-se o ano inteiro para construir seu carnaval a partir da articulação de elementos que caraterizam como “afro” e “indígena”. É na articulação destes elementos que os índios produzem-se índios e fazem a guerra. O trabalho desenvolvido na minha dissertação é uma etnografia realizada especificamente com a tribo Os Comanches. A intenção neste artigo é rever meus dados etnográficos para apresentar as articulações afroindígenas que constituem a guerra comancheira para então expandir o próprio conceito de guerra para além do carnaval. Em um primeiro momento descrevi a guerra para pensá-la como uma teoria nativa afroindígena, agora pretendo pensar se essa teoria nativa afroindígena pode se constituir enquanto uma espécie de  máquina de guerra no âmbito da teoria antropológica. Que propagações da guerra comancheira podem ser pensadas na produção antropológica sobre o carnaval de Porto Alegre?

 

 

ENCONTROS, DESENCONTROS E REENCONTROS COM E ENTRE SERES ESPIRITUAIS: AS MISAS ESPIRITUALES DE INTEGRANTES DA RED DE ANANSE DA COLÔMBIA

Luis Meza Alvarez

Doutorando PPGAS-MN-UFRJ, Brasil

lgmezaa@gmail.com

 

Nessa proposta de comunicação procuro explorar como na prática religiosa/espiritual e, especialmente, nas misas espirituales realizadas por integrantes da Red de Ananse na Colômbia, são vivenciadas e pensadas as relações entre afros e indígenas e com outros coletivos e seres espirituais. Trata-se de um exercício muito pontual de descrição que se insere numa pesquisa etnográfica em andamento na qual tento traçar os envolvimentos de um grupo de docentes, pesquisadoras, ativistas e mães com variados espaços de ação social (escola, universidade, movimento social afro-colombiano) e seus vínculos com uma espiritualidade afro (afro-cubana e afro-colombiana), como centro de seus posicionamentos ético-políticos. No marco mais geral do que seria o campo das religiões de matriz africana na Colômbia e, especialmente, no que diz respeito às religiões de matriz afro-cubanas (espiritismo cruzado, palo, santería, Ifá, que no caso deste grupo são praticadas em momentos e espaços diferenciados), as misas espirituales permitem explorar etnograficamente reflexões e posicionamentos políticos nativos em torno de noções como sincretismo, mestiçagem, assim como as classificações e os modos de relacionamentos muito concretos com esses “outros” no plano religioso/espiritual, embora definam sua prática religiosa como sendo ioruba.

Palavras-chave: relações com/entre seres espirituais, misas espirituales, religiões de matriz africana na Colômbia, Red de Ananse, etnografia.    

 

 

TUPI GUARANI: ENTRE USOS E EXEGESES PARA NÃO INDÍGENAS

 

Camila Mainardi – Pós-doutoranda, Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Goiás, Brasil. Bolsista PNPD-CAPES; mainardi.camila@gmail.com

 

A recorrência da palavra conflito em minhas anotações e suas variações em expressões, como “é muita desunião” e “não têm mais paz”, são o ponto de partida desse ensaio realizado entre as famílias tupi guarani da T.I. Piaçaguera, litoral sul de São Paulo. A cada retorno a campo, contavam-me que “aconteceram muitas mudanças”, elencando, por vezes, para onde tinha ido cada parente. Tal comentário mostra meu interesse em encontrar determinadas pessoas, mas também aponta para o movimento, o incessante descompor e compor coletivos. Vale mencionar que os conflitos – que sintetizam a ideia de ruptura, e consequente reorganização das relações – longe de serem considerados de modo negativo, como um mal degenerador da “sociedade”, são tidos como produtores desta. Tendo isto em vista, interessa-me discutir os usos dos etnônimos. Os Tupi Guarani não aceitaram um nome imposto de fora, por pesquisadores ou outros coletivos indígenas, mas trataram de ensinar aos não indígenas que são Tupi Guarani. São Tupi e Guarani – não uma coisa ou outra – o que desloca o problema de “quem” ou “o que é” Tupi Guarani, para os modos como as categorias são construídas em relação. Além disso, seguindo as reflexões nativas, o etnônimo revela a mistura (Tupi e Guarani) em detrimento da pureza (Tupi ou Guarani), o que entendo como uma tradução para os não indígenas do pensamento ameríndio. “Tupi Guarani” não se enquadra no ideal étnico de unidade coesa, mas indica a junção de dois. O nome expressa antes a multiplicidade do que a unidade.

Palavras-chave: Tupi Guarani, mistura, etnônimos, conflito.

 

 

O “ÍNDIO DO ARAPIUNS” E A FIGURA DE “MIRANDOLINO COBRA GRANDE”: ELEMENTOS ETNOGRÁFICOS EM TORNO DA (CONTRA)MESTIÇAGEM

Leandro Mahalem de Lima. Doutor em Antropologia Social. Professor substituto

DAA-Fafich/UFMG. Pesquisador CEstA/USP.

 

Esta comunicação problematiza elementos etnográficos em torno da (contra)mestiçagem, entre camponeses tradicionais, indígenas e agroextravistas, que habitam o baixo Arapiuns, próximo à sua confluência com rios Tapajós e Amazonas (Santarém, Pará). No contexto da “segunda colonização da Amazônia” (1970s), estas e outras populações da região, passaram a formar comunidades eclesiais e associações políticas intercomunitárias (sindicatos rurais). Nos anos 1990, incorporaram ao mesmo campo de agência política, um sistema formal de tipos socioculturais (indígenas, quilombolas, agroextrativistas) que delineia sistemas correlatos de categorias jurídicas (TIs, RESEXs, PAEs), órgãos estatais (Funai, Incra, INCBio) e associações representativas (conselhos indígenas, federações agroextrativistas, sindicatos rurais) para o acesso a direitos coletivos e difusos como “populações tradicionais”. As reivindicações conformam um complexo mosaico que sobrepõe e justapõe tipos socioculturais e figuras jurídicas destinadas a finalidades análogas. Não raro, as divergências redundam em discussões sobre a exclusividade (ou incompatibilidade) do acesso a direitos como “índio, negro ou branco”, permeado por boatos e acusações de agressões físicas e xamânicas (“fazer para matar”). Em meio a disputas políticas, as teses em antropologia, fundamentais à legitimação do acesso a direitos, acabam por recair em variantes reificadas do relativismo e do universalismo cultural, expressos em falsos dualismos como mestiços vs puros. No contexto do baixo Arapiuns, a comunicação debate sentidos e relações em torno da figura do pajésacaca Mirandolino Cobra Grande, “dono” de um “encante”, que impulsionou a escolha do nome “Cobra Grande” para terra indígena e o conselho indígena que envolvem os Arapium, Jaraqui e Tapajó.

Palavras chave: Amazonia central, Mestiçagem, Etnogênese, Política, Cultura.

 

 

O QUILOMBO CANHAMBOLA E OUTRAS CRIATIVIDADES POLÍTICAS: RESISTÊNCIAS E TRANSFORMAÇÕES AFROINDÍGENAS

 

Suzane de Alencar Vieira. professora da Universidade Federal de Goiás, doutora em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ; suzanealencar@gmail.com

 

As pessoas da comunidade Quilombo de Malhada, do município baiano de Caetité, concebem a si próprias como uma nação de negro com tapuia. Essa conexão afroindígena do passado é atualizada em um novo agenciamento cosmopolítico, o “quilombo canhambola”, ao longo das lutas de resistência a empreendimentos de exploração energética e mineral no alto sertão da Bahia.  A proposta desta comunicação é deslocar e descentrar, através da teoria etnográfica e da abordagem cosmopolítica, o Estado enquanto modelo político e analítico da "sociedade dos brancos" e paradigma ao qual convencionalmente se recorre para traduzir a política quilombola. Essa nova modalidade de criatividade política quilombola/canhambola se serve não apenas das categorias jurídicas para criar a possibilidade de resistência, mas também de uma cosmopolítica afroindígena. Os conceitos nativos da “pirraça” e da “treta” agenciam, em uma teoria política própria, rivalidade, segmentaridade e recusa ao poder unificado. O agenciamento da “pirraça” recobra o plano simétrico e a reversibilidade do diálogo político e faz proliferar divergências, enquanto que a “treta” sinaliza a recusa ao consenso da representação política e da síntese totalizante das diferenças. A cosmopolítica afroindígena, enquanto um agenciamento minoritário, aponta para outra maneira de lidar com a diferença. Ao invés de submeter os agenciamentos e a forma de enunciação quilombola às categorias da política do Estado, uma abordagem cosmopolítica deixa que essa outra criatividade transforme o modo como concebemos a política. A diferença é tomada como um devir que modifica ou coloca em risco a forma convencional de pensar e fazer política.

Palavras-chave: resistência, comunidades quilombolas, sertão da Bahia (Brasil), cosmopolíticas afroindígenas